Poucas coisas mudam tão rapidamente quanto o humor do torcedor de futebol. Como, no fundo, no fundo, os cronistas esportivos são torcedores também, a classe não está livre de oscilações galopantes de humor. Menciono isso porque fiquei espantado com a velocidade da transformação da imagem de Ricardo Gomes perante a opinião pública e, especialmente, segundo a avaliação da crítica. O técnico que há poucas semanas era considerado sério, competente e até ousado, depois de dois empates da Seleção Pré-Olímpica foi simplesmente execrado. A mesma coerência que cobramos de dirigentes, treinadores e jogadores devemos aplicar a nós mesmos, cronistas. É possível fazer muitas categorizações da classe dos comentaristas esportivos: dos folclóricos aos contidos; dos passionais aos ponderados; dos galãs aos avacalhados. Mas eu acredito que eles se dividem mesmo em dois grupos: os que acreditam que o técnico é o principal responsável pelo rendimento de uma equipe e os que atribuem tal primazia aos jogadores. E eu sou desse último grupo.
Em função disso, não seria coerente afirmar que o Brasil ganhou e deu espetáculo por conta da arte superior de seus craques e se mostrou apático e sem poder de finalização por culpa única e exclusiva do Ricardo Gomes. Nada disso. Se nas goleadas das primeiras rodadas o talento dos jogadores pesou mais do que as indicações do técnico, quando atuamos de forma apática e finalizamos mal em dezenas - dezenas! - de oportunidades nas últimas partidas, eu insisto em manter nos astros do espetáculo o foco da minha análise. O Brasil não jogou bem porque Ricardo Gomes é bestial, da mesma forma que não jogou mal porque ele é uma besta. O Brasil foi bem ou mal de acordo com a disposição dos jogadores. Ora, se dominamos nossas partidas contra uruguaios e chilenos e criamos inúmeras situações de gol, parece-me que o treinador não foi assim tão pernicioso para o desempenho da equipe. Quem perde gol feito, erra passe de dois metros e fura o chute na hora de afastar o perigo nunca é o técnico - por mais incompetente que ele possa ser. Quem ganha ou perde as partidas são os jogadores. O excesso de importância dado aos estrategistas da beira do gramado é, na minha opinião, uma das causas da perda de qualidade do futebol nos últimos 20 anos.
Pode-se discutir uma peça ou outra. Mas, em linhas gerais, pouca gente discorda da qualidade do grupo convocado por Ricardo Gomes para o Pré-Olímpico. No que se refere à escalação do time, ainda que eu prefira a formação menos carregada de volantes e com um centroavante vocacional, a discordância pode chegar a um ou dois nomes. O que faltou ao time nos tropeços da primeira fase foi atrevimento e personalidade. O mesmo atrevimento e personalidade que a molecada mostrou nas primeiras partidas, motivando-me a escrever uma alentadora coluna sobre o assunto. Ontem, frente aos colombianos, o Brasil repetiu a dose da partida contra o Chile e marcou logo no início, através de uma cabeçada de Alex. E, exatamente como no jogo contra o Chile, passou a perder boas chances após o gol, mostrando-se inseguro na saída de bola e, sobretudo, na marcação. Não ouvi um grito de Ricardo Gomes pedindo para a equipe recuar ou afrouxar a marcação - ou instruindo os atacantes a jogar isolados. Muito pelo contrário. O time não jogou mal por culpa de Ricardo Gomes. Como não foi tão-somente por conta de suas instruções que a equipe, com umas poucas jogadas lúcidas, tenha liquidado o jogo na segunda etapa.
Se Ricardo Gomes cometeu um erro, esse erro foi ter deixado o habilidoso e eficiente Daniel Carvalho fora da equipe em alguns jogos. Como Fábio Rochemback deve voltar - com toda justiça, aliás - contra os argentinos, não acho correto sacar do time o atacante do Internacional. Por outro lado, um ataque com ele e Robinho, sem um jogador de área, será pouco efetivo. A solução? Minha preferida: sacar um volante do time. Não seria tão arriscado, especialmente se considerarmos que os meias do nosso elenco têm bom poder de marcação. Infelizmente, não acredito que algum técnico no Brasil tenha peito para escalar um time com três atacantes para enfrentar a Argentina. Depois dos hermanos, teremos ainda Chile e Paraguai. São três jogos para carimbar o passaporte para Atenas: na quarta, na sexta e no domingo. E já que falei nisso, vale lembrar que tão fácil quanto culpar o técnico por um eventual insucesso da campanha, será creditar à seqüência de jogos e ao cansaço dos atletas um possível tropeço. Quem, como eu, conhece alguns maratonistas de 60 e 70 anos, que mantêm a forma correndo cerca de 70km por semana, chega a se ofender só de ouvir falar num garoto de 20 anos incapaz de correr por meros 270 minutos em cinco dias. Mas isso é assunto para uma outra coluna.