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Tudo certinho...


A Segunda Guerra Mundial talvez tenha sido o último conflito no qual o Bem o Mal se diferenciavam claramente. Após a vitória dos aliados, se difundiu pelo mundo uma espécie de regra para as histórias de ficção: qualquer que fosse o enredo, o final teria de ser escancaradamente feliz. No cinema, a regra dos finais felizes foi levada às últimas conseqüências. Entre a segunda metade dos anos 40 e o início dos anos 60, filme bom era o que tinha muito sofrimento no meio, mas lágrimas de emoção, música de violinos e beijos apaixonados no final. Se o final não fosse feliz, o filme não prestava. José Werneck Franco, meu avô materno, era um admirador desses enredos otimistas. Mesmo quando ele não conseguia acompanhar o desenrolar da história de um filme, prestava atenção no desfecho, para conferir se as coisas terminavam bem. Quando o mocinho prendia o bandido, beijava a mocinha sob o pôr-do-sol e coros grandiosos invadiam a sala, vovô suspirava baixinho, num misto de satisfação e ironia, e dizia: ''Tudo certinho...''

Os anos 60 chegaram para mostrar que o Bem e o Mal não eram mais tão distinguíveis, e, desde então, os filmes com final feliz escassearam substancialmente. Chique agora é o herói ser meio bandido, ou o bandido ser meio herói, sabe-se lá. Se uma história tem final feliz é imediatamente tachada de previsível, tola ou brega. Fiel às tradições de meu avô, tenho grande afeição por finais felizes - ainda mais nestes tempos de desfechos tristonhos. E é exatamente por isso que devo confessar minha grande emoção com a formidável conquista de Palmeiras e Botafogo na noite do último sábado. A volta dessas duas legendas à divisão de elite do futebol nacional foi uma das mais belas páginas da história do nosso esporte. Uma história com final feliz. Feliz como uma produção hollywoodiana dos anos 40, uma vez que nem mesmo Frank Capra seria capaz de conceber um desfecho tão bonito para o épico de agonia e êxtase de alvinegros e alviverdes.

A agonia começou nas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro do ano passado. Como num filme mais típico dos últimos tempos, a história dos dois clubes, naquela oportunidade, teve enredo sombrio e final desolador. Só o torcedor que já atravessou uma ceia de Natal com o time rebaixado pode avaliar o que sofreram palmeirenses e botafoguenses entre as longas semanas na zona de rebaixamento e a última rodada, que sacramentou a humilhação suprema. Sim, porque não adianta disfarçar: para os torcedores dos grandes clubes - e só para eles - a Segunda Divisão é o inferno.

Um ano e dez dias depois de terem tombado, Palmeiras e Botafogo superaram as gozações, o começo inseguro, a pressão nos estádios adversários e um regulamento com ares de montanha russa para conquistar a volta à Primeira Divisão no campo. Sim, no campo. Pode não parecer muito, mas, em épocas de tanto tapetão, de tanta virada de mesa, é importante destacar que o triunfo dos dois clubes foi obtido dentro de campo - e de forma imaculada. As duas equipes lideraram todas as fases da competição, estiveram sempre vários degraus acima das demais e jogaram com alma e entusiasmo. E, se é de justiça que falamos, nada mais justo do que o Palmeiras ser premiado com o título de campeão. O clube paulista venceu não só o quadrangular final, como também todas as etapas anteriores do torneio e não merecia terminar sem a taça nas mãos e uma festa diante de sua apaixonada torcida.

O final feliz dos dois clubes contou com todos os ingredientes de uma grande história. Teve, por exemplo, a figura do herói veterano que retorna para provar, talvez pela última vez, o valor que ainda possui - caso de Valdo. Teve também protagonistas estóicos, que se destacaram mais pela garra do que por um elemento tangível - casos de Magrão e Sandro, que foram premiados com gols nos confrontos decisivos. Ainda tivemos a emoção de Marcos e Leandrão; o talento promissor de Diego, Edmílson e Vagner; o vilão de 2003 que virou herói em 2004, Levir Culpi; Bebeto de Freitas, o líder ético da virada; e o eterno vice que finalmente se consagrou como campeão: Jair Picerni.

Essas duas equipes, que caíram no mesmo dia e se reergueram no mesmo dia, desenvolverão, creio, um certo parentesco daqui para frente. Depois do batismo de fogo, Botafogo e Palmeiras serão irmãos de sangue. Porque, desde o último sábado, será difícil contar a história do ressurgimento do Alviverde imponente sem lembrar-nos também do Glorioso que não pode perder. Perder pra ninguém. Estou certo de que, se estivesse vivo, meu avô José desligaria a televisão após as voltas olímpicas que formaram uma ponte de luz entre Garanhuns e Niterói e faria o tradicional comentário: ''Tudo certinho...''. Ao que eu completaria, satisfeito: Tudo está bem quando acaba bem.


[24/NOV/2003]


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