Um pequeno problema de saúde me forçou a ficar de pernas para o ar por uma semana, num leito de hospital. As enfermidades, por menores que sejam, têm esse poder de nos fazer pensar sobre a inevitável decadência física - e mesmo sem ter chegado aos 40, idade que para um cronista corresponde à adolescência, não me furtei de umas reflexões sobre o fim da carreira. Outra conseqüência de um repouso forçado é o tempo que sobra para ler bastante e ver filmes na televisão. Pois, numa dessas horas vadias, me tocou assistir aos últimos minutos do filme
Réquiem por um lutador, estrelado pelo saudoso Anthony Quinn, que foi pugilista antes de se dedicar às telas. O filme narra o drama de Mountain Rivera, um boxeador decadente que após 17 anos nos ringues é alertado por um médico sobre a impossibilidade de continuar lutando, pois corria o risco de ficar inválido.
A penúltima cena transcorre nos vestiários de uma arena de luta livre, modalidade parecida com o nosso velho tele-catch, na qual grandalhões fantasiados participam de combates forjados. Num canto do vestiário, visivelmente humilhado, está o ex-pugilista Rivera, vestido com uma improvisada roupa de índio e uma patética peruca com longas tranças. Mesmo contrariado em participar do espetáculo burlesco, ele sabe que precisa do dinheiro. O veterano até aceita lutar, mas pede, implora por uma pequena concessão: só subirá ao ringue sem a constrangedora peruca. O mafioso organizador da luta não concorda com o apelo de Rivera e manda seus capangas caírem sobre ele. Com a coragem de sempre, o velho pugilista espanca seus oponentes e diz que não lutará mais. É quando as ameaças se voltam para o empresário e amigo do pugilista. Um empresário picareta, que chegou a apostar contra seu protegido no último combate, mas que, apesar de tudo, era uma das únicas pessoas das quais o boxeador gostou na vida. Ao ver o amigo nas garras dos capangas, Rivera capitula. Ele veste a peruca, apanha a machadinha de madeira e, caracterizado como um cacique de bloco dos sujos, encaminha-se para o ringue.
A cena final mostra Rivera atravessando a multidão sob vaias, xingamentos e ironias - já que, na farsa da luta livre, o cacique era um dos vilões. Gritam-lhe que está acabado, que é uma vergonha para o boxe, que não leve nada a sério, já que aquela luta é de mentira. Com expressão perturbada, Rivera sobe ao ringue, ouve o gongo e então o filme chega ao seu desfecho. O que faria o velho pugilista? Recusaria-se a lutar? Cobriria o oponente de pancadas para vingar-se? Tentaria preservar sua dignidade? Nada disso. Com contas para pagar e o amigo nas garras dos capangas, Rivera caminha em direção ao adversário, leva a palma da mão direita até a boca e golpeia-a seguidamente, enquanto grita como os índios dos filmes de segunda categoria: ''Uh-uh-uh-uh-uh!''. O filme acaba. Um desfecho duro, mas que retrata perfeitamente o final de carreira de muitos atletas.
Quando vejo o outrora prodigioso Mike Tyson repetir a humilhação de Rivera e assinar um contrato para participar do campeonato de vale-tudo, quando lembro das críticas que o glorioso Taffarel - que acaba de anunciar a aposentadoria - recebeu no fim da carreira, quando leio os artigos com aspecto de epitáfio dirigidos ao genial Romário, sou obrigado a admitir a crueldade do ser humano e o pouco respeito que nutrimos pelos que estão cumprindo a última etapa de suas caminhadas profissionais, na qual a incerteza do corpo sobrepuja a certeza do espírito.
Depois do filme, lá no hospital, ponderei que a decadência não é uma exclusividade dos atletas, ainda que ela chegue mais cedo para eles. Recordei as palavras de um jornalista veterano, quando questionei um texto que ele escreveu para um informe publicitário - aqueles anúncios em forma de reportagem, cuja publicação não é de responsabilidade dos jornais. ''Essa foi uma dessas coisas menos nobres que o sujeito precisa fazer para pagar o colégio dos filhos quando chega ao outono da carreira. É possível que um dia você precise fazer algo parecido'', disse-me o amigo. E ele tem razão. É bom que nos acostumemos com a idéia de, mais cedo ou mais tarde, sermos convidados a vestir aquela triste fantasia de índio. Desde já, venho me preparando para o dia em que terei que bater com a mão na boca sair por aí gritando: uh-uh-uh-uh-uh!...