Uma das mais deliciosas composições do brilhante Aldir Blanc, meu companheiro de
Pasquim, é uma mescla de samba e crônica carioca, feita em parceria com o João Bosco, que recebeu o sugestivo título de ''Siri recheado e o cacete''. A letra narra as desventuras de dois amigos que decidem empreender uma pescaria no Canal da Barra, regada a muita birita. Após derrubarem um balde de siris num ônibus, causando enorme confusão, eles vão parar na delegacia, onde seus crustáceos quase foram devidamente autuados. A história é muito engraçada, mas para o tema de hoje eu pretendo resgatar apenas uma de suas passagens, na qual o narrador lembra que o compadre Anescar - seu companheiro de pescaria - perguntou se ele era ''Mendonça ou Dinamite''. A simples menção dos nomes dos jogadores dava um sentido definitivo à pergunta. Anescar queria saber se o amigo era botafoguense ou vascaíno. Até os anos 70 podíamos perguntar pelo time de alguém dessa maneira, já que Mendonça realmente representava o Botafogo e Roberto Dinamite, o Vasco. E poderíamos lembrar muitos outros exemplos, como Edinho no Fluminense, Zico no Flamengo, Zé Maria no Corinthians, Leivinha no Palmeiras, Pedro Rocha no São Paulo e, claro, Pelé no Santos.
Muita coisa mudou desde então. Imagine se o compadre Anescar perguntasse hoje: ''Você é Viola ou Marcelinho?'' Deus do céu, uma pergunta dessas poderia gerar dezenas de respostas! A partir do final dos anos 80, jogadores que trocam de clube como políticos trocam de opinião passaram a ser o padrão do mercado. O torcedor, que antes sabia escalar seu time do goleiro ao ponta-esquerda com cadência de repentista, passou a gaguejar com o elenco. Esse troca-troca de ídolos contribuiu enormemente para a decadência do futebol brasileiro como negócio e como espetáculo, mas o pior ainda estava por vir. Há um fenômeno mais recente e ainda mais nocivo para o esporte nacional: a fuga de jovens talentos para o exterior.
Kaká foi para o Milan, e o acerto de Diego com o Tottenham começa a ganhar contornos de novela - igualzinho ao caso Kaká. Se Diego for negociado, veremos as maiores revelações do último Brasileiro irem embora sem sequer participar da disputa da segunda metade do campeonato atual. Isso sem falar na horda de jogadores levados para centros de menor tradição futebolística, casos de Turquia, Coréia, Catar e Ucrânia. Tem gente que culpa o fim da Lei do Passe pelo recrudescimento do êxodo de jogadores. Provavelmente são os mesmos que acham que os estádios estão vazios por causa da fórmula dos pontos corridos - como se os estádios não andassem vazios há mais de 20 anos. Mas os estádios vazios e o êxodo de jogadores são faces de uma mesma moeda: o fim do futebol brasileiro como espetáculo ao vivo. Os estádios estão vazios porque os clubes não precisam de arquibancadas cheias, já que a audiência na TV é sempre boa e garante as cotas que sustentam os clubes. E então eu pergunto: como pode ser que um espetáculo que é fracasso de crítica e público seja um sucesso de audiência na TV?
O que não atrai público não atrai telespectadores - e ver o grande espetáculo ao vivo sempre custará mais caro, pois os ingressos serão disputadíssimos. Eis a lógica de qualquer evento. Nos esportes tipicamente americanos, se um time tiver audiência espetacular na TV, mas for incapaz de encher seu estádio, fecha as portas e muda de cidade. Aqui, essa lógica foi invertida. Houve uma época na qual os clubes dependiam de estádios cheios para sobreviver. Quem jogava bem, enchia os estádios e ganhava dinheiro para manter um bom time. Quem jogava mal, perdia dinheiro. Havia o compromisso da vitória. Hoje, os polpudos adiantamentos das redes de televisão e patrocínios geraram uma situação esdrúxula: os times não dependem de boas atuações para ganhar dinheiro. Essa ditadura da audiência é a maior causa do êxodo dos craques. O torcedor não desliga a televisão de jeito nenhum, mesmo sem craques no time. Isso faz com que a TV mantenha as boas cotas e os clubes continuem vendendo os talentos para cobrir rombos de sua má gestão e porque, afinal de contas, quem gosta de ver craque é o bobo do torcedor que vai ao estádio. Acho que o futebol jamais será viável com estádios vazios, mas cada vez menos gente parece concordar comigo.