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A Intentona Cartolista

Em 1935, quando alguns integrantes do Partido Comunista fizeram uma investida para tomar o poder no país, os militares ligados ao governo Vargas trataram logo de batizar o movimento de Intentona Comunista, com o evidente objetivo de desvalorizar o levante. A bravura de Prestes e de seus companheiros fez com que, ao longo da história - e ao contrário do que imaginavam os lugares-tenentes do famoso caudilho -, a palavra intentona adquirisse conotações de valentia e idealismo. Mas está lá, no dicionário, para quem quiser conferir: intentona é um intento louco, um plano insensato, uma tentativa frustrada de motim ou revolta. Decidi, portanto, batizar de Intentona Cartolista a patética quartelada que alguns dirigentes esportivos do país procuraram levar a cabo na última semana. A intentona dos perniciosos cartolas se pareceu muito mais com a definição do dicionário do que com a iniciativa dos comunistas da época do Estado Novo.

A investida dos cartolas contra o governo, as leis e os sacrificados torcedores foi um rotundo e espesso fracasso, por qualquer ângulo que se deseje avaliar o episódio. Em primeiro lugar porque, sem qualquer vestígio de valentia, os cartolas botaram a viola no saco ao primeiro rugido do Executivo - que acertadamente optou por falar grosso com os suspeitos de sempre, fazendo valer o que está previsto no Código de Defesa do Torcedor, sancionado recentemente, mas discutido há muitos meses. O recuo constrangedor e patético mostrou que blefes e chantagens não vão funcionar com este governo, o que nos permite vislumbrar o dia em que canalhas praticantes irão para trás das grades por crimes cometidos contra os clubes e os torcedores, algo que acontece comumente nos países mais avançados.

Só que o fracasso dos cartolas não foi a única boa notícia da semana. A própria ameaça de locaute prestou um gigantesco serviço aos que querem ver o Código pegar. Toda vez que um livro é queimado em praça pública acaba vendendo muito, em função da curiosidade despertada. O mesmo acontece com aqueles filmes polêmicos, condenados pelos setores mais conservadores, que sempre produzem boas bilheterias, mesmo quando artisticamente não são lá essas coisas. Pois a reação tão destemperada do que o Juca Kfouri chama de ''O Lado do Mal'' terminou fazendo um bem danado à divulgação do Código - algo que o presidente Lula fez questão de incentivar quando o sancionou. A polêmica da intentona fez com que em menos de uma semana o torcedor já estivesse discutindo e cobrando uma ambulância para cada dez mil torcedores, lugares numerados, divulgação dos borderôs e um monte de outros detalhes da lei que, sem tanta gritaria, levariam meses para ser conhecidos.

Graças aos cartolas, os torcedores já sabem direitinho o que exigir. Graças ao governo, tivemos rodada no final de semana. Uma rodada movimentada, cheia de surpresas e bons jogos. Uma rodada na qual o Corinthians provou que não abaixou a guarda depois da eliminação da Libertadores, enquanto o Paysandu, no extremo oposto, demonstrou que sentiu o sonho continental abruptamente abortado. Uma rodada que mostrou que o Flamengo da Copa do Brasil realmente não guarda qualquer relação com o Flamengo do Brasileiro. O que é uma pena para a sua torcida, que gostaria de ver o time tendo pelo que brigar até dezembro. Uma rodada em que o Vasco voltou a dar sinais de vida, com um gol de pênalti aos 43 do segundo tempo em São Januário. Um pênalti estranho que, como tivemos sorteio de juiz - para isso ele foi inventado -, jamais poderá ser apontado como fruto de um conluio.

Foi também uma rodada onde o São Paulo, ainda sem empolgar, voltou a ocupar as primeiras posições da tabela. Se a torcida apoiar, o time poderá ir mais longe. A rodada ainda deixou claro que o Fluminense não tem ataque e que deve buscar já um acerto com o Baixinho. E que o 3-6-1 inventado por Renato Gaúcho é um sistema natimorto. A rodada festiva, que celebrou a derrocada dos cartolas e a vitória dos torcedores, foi fechada com dois grandes jogos. Na Vila, a molecada ainda pouco conhecida do Inter deu um trabalho enorme para a consagrada molecada do Santos. Mesmo fora de casa, os gaúchos jogaram com enorme empenho, souberam atacar e por pouco não surpreenderam. Enquanto isso, na Bahia, o Vitória acabou com a farra do Cruzeiro e deu novo colorido ao Brasileiro, deixando sua briga ainda mais embolada. Enfim, uma rodada de festa - para celebrar aquela que pode ser a primeira semana do resto das vidas dos que amam o nosso futebol.

[26/MAI/2003]

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