Nos últimos tempos venho tentando destinar ao estudo do comportamento das torcidas a mesma atenção que normalmente reservo ao movimento tático das equipes em campo. Infelizmente, as redes de televisão não se preocupam em mostrar detalhes das reações dos torcedores, fora os tradicionais
flashes das mulheres bonitas e figuras folclóricas das arquibancadas. Se os canais pagos tivessem aqueles recursos multicâmera que permitem ao telespectador escolher o ângulo pelo qual prefere ver um evento, e se uma dessas câmeras estivesse apontada para as arquibancadas, confesso que passaria um bom tempo acompanhando as coisas da perspectiva das turbas apaixonadas. Menos mal que os microfones que captam o som ambiente, além de algumas incursões aos estádios, me permitem concluir algo sobre a questão.
Algumas partidas recentes foram valiosas para quem deseja entender a relação das torcidas com os clubes. Começo por Boca Juniors x Paysandu, que de longe foi o jogo mais eletrizante da semana - no qual o Papão deu uma verdadeira aula de raça, técnica e tática ao poderoso clube argentino, em plena Bombonera. O Boca estava numa noite pouco inspirada e acabou sofrendo o gol quando o adversário tinha apenas nove jogadores em campo. A reação da torcida após o gol? Passou a gritar ainda mais apaixonadamente, a cantar com mais emoção. O juiz encerrou o confronto e os fanáticos argentinos continuaram saudando o time por mais cinco ou dez minutos. Os jogadores do Boca tentarão devolver o resultado em Belém insuflados pela certeza de ter uma torcida dedicada e confiante.
A reação ardente dos argentinos não chega a ser novidade para alguém que viveu lá por alguns anos. E nem é exclusividade do Boca - ainda que sua torcida esteja um tom acima das demais. Recordo-me do jogo que marcou a reinauguração da Bombonera e foi vencido pelo Racing por nada menos que 6 x 0. Naquela tarde, arrepiado de emoção, vi a torcida local gritar ''dale Boca!'' até os refletores do estádio serem apagados, mais de meia hora depois do final da partida. Já no Brasil, as coisas são muito diferentes. Aqui, na mesma noite em que o Boca perdeu para o Paysandu, o Fluminense foi derrotado pelo Sport, pelo mesmo placar. Ao contrário dos jogadores do Boca, os atletas tricolores não viajarão certos de contar com o apoio da torcida, mas até aliviados - já que em Recife não terão que encarar os furiosos fãs que, com menos de dez minutos de partida no Maracanã, já os vaiavam a plenos pulmões.
Quem teve a oportunidade de assistir a um jogo do São Paulo no Morumbi entenderá bem o que aconteceu na última quinta-feira no jogo do Fluminense. Chega a ser desagradável a falta de paciência da torcida são-paulina com um elenco que, se não é o melhor do Brasil, como seus dirigentes insistem em dizer, ao menos é um dos cinco melhores do país. Basta um passe errado para que a fúria tome conta de boa parte da arquibancada. O destempero dos setores mais exaltados da torcida é tão assombroso que começa a despertar - com muita justiça - uma reação indignada daqueles que vão ao estádio para apoiar o time, e não para celebrar o juízo final a cada tropeço. Falei dos dois tricolores como poderia falar de qualquer outro time no Brasil, já que a psicologia dos torcedores segue um mesmo padrão.
O Vitória, nem mesmo após a antológica goleada de 7 a 2 no Palmeiras, escapou das vaias quando, dias depois, perdeu em casa para o Internacional. Falei do Palmeiras e recordo um manifesto enviado por uma facção radical do clube, avisando - antes do início do campeonato da série B - que perseguiria incansavelmente jogadores e dirigentes. Foi uma espécie de vaia pré-datada. Extremamente justa no caso dos incompetentes dirigentes, mas extremamente injusta no caso dos jogadores. Especialmente por conta do pré-julgamento.
A diferença entre os torcedores brasileiros e argentinos é muito evidente e fácil de explicar. Enquanto os argentinos amam o clube de uma forma quase religiosa - e sem esperar nada em troca -, os brasileiros, especialmente os bárbaros das torcidas organizadas, se consideram donos dos clubes. E donos daqueles irascíveis, com nenhuma paciência para tolerar deslizes e enorme disposição para xingar quando as coisas não saem de acordo com seu ambicioso script de vitórias e glórias. Isso só serve para cristalizar ainda mais aquela impressão que alguém registrou certa vez, com muito acerto: o torcedor brasileiro não ama o esporte. Ama apenas e tão somente as conquistas. Existem muitas maneiras de amar. Mas eu, romântico incorrigível, prefiro a das tardes da Bombonera.