JB Online - Copa do Mundo 2002

















Anistiem Maradona

GWANGJU, CORÉIA DO SUL - No caminho para o belíssimo estádio de Gwangju, onde fui conferir de perto a incrível fragilidade de China e Costa Rica, me caíram nas mãos alguns artigos sobre a história do futebol coreano. Outra vez, graças ao messianismo esportivo dos marinheiros ingleses, a primeira partida de futebol disputada aqui foi entre um improvisado combinado local e um grupo de marujos do navio Flying Fish. Será que esses humildes marinheiros sabiam da bênção que levavam a tantos países? Que Deus os abençoe.

A Coréia não foi o único país a começar a jogar futebol por obra dos ingleses. Mas eles têm em sua história uma façanha que poucas nações ostentam. É que no tal primeiro jogo, disputado em 1882, o combinado coreano bateu os ingleses por 1 a 0. Quem fez o gol? Ninguém sabe. Através de muitos e muitos anos, diversos historiadores tentaram, em vão, desvendar o mistério. Tudo o que os coreanos buscam é um nome. O nome do herói daquele jogo. Improvisado sim, mas que foi o mais significativo da história do esporte local.

O futebol construiu sua legenda apoiado em grandes personagens. Por isso os coreanos se esmeram tanto na busca do goleador perdido. Um herói não merece ficar anônimo. E o nome de um herói também não deve ser apagado da história. Ainda pensava nisso quando o telão do estádio começou a exibir imagens dos gênios de todas as copas. Naquela clássica comemoração de Pelé, Tostão e Jairzinho, eu engasguei de emoção. Mas foi quando apareceu o gol de Maradona contra a Inglaterra - a maior criação individual da história das copas - que eu finalmente desabei.

Chorar por Maradona? - dirão alguns mais xenófobos ou insensíveis. Por que não por Pelé e Tostão? Por que não por um dos nossos? Poderia até explicar que, no mundo da bola, não existe propriamente essas coisas de ''um dos nossos'' - todo craque é, para mim, um pouco brasileiro. Mas o motivo ia além disso. Ocorre que, enquanto Pelé e Tostão estão na Copa do Mundo trabalhando e circulando livremente, com o enorme respeito que merecem, Maradona foi impedido de entrar no Japão. Não pôde trabalhar como comentarista e acompanhar a seleção que tanto ama.

Confrontar a trajetória imaculada de Tostão - a maior reserva moral do futebol brasileiro - com a conturbada biografia de Diego Armando Maradona é uma covardia que não pretendo perpetrar. Ao contrário, peço que deixemos de lado o histórico pessoal do argentino e pensemos apenas no gênio do futebol que ele foi. Lembremo-nos de seus dribles, de seus lançamentos, de sua habilidade incrível. Este é o Maradona que o telão exibia. Este é o Maradona em que penso quando pronunciam seu nome. E é neste Maradona que as autoridades japonesas deveriam pensar, antes de expulsá-lo da maior festa do esporte que ele ajudou a construir.

Se não querem a presença do craque, que tirem então suas imagens dos telões dos estádios. À moda de Stalin, apaguem dos registros históricos o nome e as jogadas do craque - mas não me venham com moralismos atrasados e preconceitos. Odeio as drogas. Sei do imenso mal que elas causam ao mundo. Mas o infeliz que, em meio a uma Copa do Mundo, olhar para Maradona e lembrar do usuário de drogas antes do futebolista, será tão digno de pena quanto ele. Por falar nisso, será que todos os astros de rock que fazem shows em Tóquio nunca usaram droga? Dificilmente.

E se nenhum dos argumentos ainda foi capaz de convencer o leitor, apresento apenas mais este: Maradona não é criminoso. É doente. Por trás de cada pessoa que se droga se esconde um doloroso pedido de socorro. Se virarmos o rosto aos que sofrem dessa enfermidade, justamente quando mais precisam, se os privarmos do convívio com as coisas que amam - e Maradona ama o futebol - que espécie de canalhas seremos nós?

Anistiem Maradona. Deixem que ele possa tentar a volta por cima e desfilar o exemplo de sua agonia e recuperação para as novas gerações. Diego Armando Maradona conseguiu driblar tantos quantos foram os marcadores que lhe apareceram pela frente. Só não será capaz de driblar o preconceito imbecil de certas pessoas. Vamos celebrar Maradona enquanto ele está vivo - e não apenas quando ele for uma imagem amarelada num telão de um estádio moderno. Que o seu nome não fique perdido na poeira do tempo, como o do herói coreano daquela longínqua partida de 1882.



[05/JUN/2002]

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