Qual a responsabilidade dos nossos salva-vidas? No sábado, dia 20, lá pelas 18 horas, eu estava caminhando pela orla da Barra da Tijuca, na altura da Praia do Pepê, quando passei pelo posto de Grupamento Marítimo, de responsabilidade da Secretaria da Defesa Civil do Estado do Rio.
Fiquei impressionado com os gritos que ouvia.
Curioso, cheguei perto para ver o que estava acontecendo. Era uma senhora que, com o microfone em punho, gritava freneticamente em nome de Deus. Ali, no pátio interno de um posto público, era realizado um culto divino. Estranhei e divaguei: será que ali é lugar, será que isso é permitido?
Evidentemente que pessoas se chegavam para saber o que estava acontecendo. Na platéia organizada estavam sentados aqueles que seriam alguns salva-vidas ou funcionários daquele posto.
Estava estupefato. Incrível que isto acontecesse dentro de um edifício público! Ele servia de palco para divulgação de uma crença religiosa!
Por que a predileção de um órgão oficial por um determinado tipo de doutrina? Deve um prédio de um órgão público dar espaço para cultos religiosos? Poderemos ter lá também uma missa católica, uma cerimônia judaica, um culto de candomblé ou uma reunião de qualquer outra religião que se interesse pelo uso daquele espaço? Se ali é um lugar apropriado para um determinado tipo de evangelização, acho que todos os cultos deveriam ter o direito de usar aquele palco.
Não entendo como isto é permitido dentro de uma corporação pública de tamanha seriedade e importância.
Sem nenhum preconceito com qualquer crença, o que me deixa bobo é a organização que existe para divulgar as coisas em nome de Deus.
O ser humano se encontra numa sensação de terror diária. É bem complicado viver. Uma maneira é se agarrar numa crença, numa ''força superior'', em algo que seja possível acreditar.
As pessoas sentem tanta necessidade de um apoio, de um tipo de segurança, que muitas vezes entregam sua própria vida, suas dores, seus méritos, seus esforços a um pastor, um padre, um rabino ou a um pai de santo, enfim a alguém que se diga mais próximo do ''divino''. Colocam-se como devedores por terem seu desabafo ouvido por este outro ser humano de carne e osso, com defeitos e virtudes. Alguns chegam a pagar financeiramente e emocionalmente por este momento de ''cuidado'' ou de atalho aos ouvidos de um Deus.
Evidentemente que existem vários tipos de religiosos, alguns de grande valor humanitário, de grande sabedoria e de serviços efetivos à sociedade. Mas muitas vezes são seres humanos, gananciosos, usurpadores, comerciantes da fé e da inocência alheia.
Outro dia eu estava prestando atenção a uma entrevista de um determinado padre. Só o tom de sua voz, só a maneira de ele falar em nome de Deus, só a forma destacada no universo em que ele se coloca (pois afinal ele é muito mais próximo do ''divino'' do que qualquer um de nós, simples mortais) me dava uma náusea horrorosa.
Eu não acredito que nenhum ser humano seja superior ao outro por estar supostamente mais próximo de Deus. Para falar em nome d'Ele não é preciso ter comportamento, voz ou postura alterada.
Todos os humanos têm dores, necessidades e desejos. Eu parto da teoria de que todos nós somos fragmentos de um Deus, portanto na essência somos seres iguais. Precisamos comer, ir ao banheiro todos os dias. Só acredito em alguém diferente quando não sentir mais dor ou não precisar fazer mais cocô, aí sim será um ser humano destacado dos outros.
Nem aquele que veio ao mundo com uma missão tão especial, tão importante, teve privilégios. Sofreu todas as necessidades que os humanos passam a ponto de passar pela dor suprema de uma crucificação, não teve regalias de nenhuma forma. Nem sendo o filho de Deus ele posava como um ser especial como alguns dos nossos pregadores.
É de uma grande responsabilidade usar um prédio público para qualquer atividade que não seja as que são diretamente ligadas com o ofício exercido. Aquela casa abriga salvadores de vidas, não de almas.