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O teatro do mestre Chico

 


O teatro do mestre Chico


Como é agradável ser contemporâneo de um gênio como o Chico Buarque. Poder encontrá-lo pelas ruas do Rio, nas bancas de revistas, à noite, jantando com os amigos, jogando o seu futebol e depois produzindo e entregando para o Brasil o que existe de melhor na música e na poesia. Ele é dono de uma obra avassaladora, emocional e poeticamente. E não falo só de suas músicas, mas dos livros, dos filmes, das trilhas para espetáculos e das peças teatrais. Neste artigo, vou falar apenas do seu teatro, pois o trabalho do Chico merece não apenas uma crônica, mas um jornal completo, incluindo a parte de classificados.

Roda viva - Escrita em 1968 e dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, fez sucesso no Rio na primeira montagem, com Marieta Severo e Antonio Pedro. Tinha cores revolucionárias e um texto dinâmico, forte e rico em dramaturgia. Na segunda montagem, com Marília Pêra, Pedro Paulo Rangel, Antonio Pedro, Peréio e Flávio Santiago, o espetáculo foi proibido pelo Comando de Caça aos Comunistas, que invadiu o teatro e espancou artistas, destruindo o cenário. Além de seu cunho artístico importantíssimo, serviu como marco contrário à presença da ditadura no país. Mais um crédito a favor de Chico.

Calabar - Escrita por Chico e Ruy Guerra em 1973, foi uma das produções teatrais mais caras da época. Por conta da Censura do governo militar não pôde estrear, causando um prejuízo artístico e financeiro imenso. Só remontaram o espetáculo seis anos mais tarde, já liberado pela maldita Censura.

Gota d'água - Foi escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes e dirigida por Gianni Ratto, com direção musical de Dory Caymmi. Estrelada por Bibi Ferreira, teve no elenco Oswaldo Loureiro e Roberto Bonfim. Lembro-me bem do dia em que assisti a esse musical, há praticamente 30 anos. Foi inesquecível ver a Joana feita pela Bibi, com um vestidinho preto. Ela representava o texto e as músicas do Chico de uma forma tão espetacular que a platéia ficava fascinada. As músicas são magníficas e algumas delas, como a que dá título ao espetáculo e a sensacional Basta um dia, passaram para a história das grandes músicas brasileiras. Ouvir e ver a Bibi cantando dramaticamente essas canções era uma sensação de arrepiar até defunto.

Ópera do malandro - De Chico Buarque. A primeira montagem teve produção de Ary Fontoura e direção musical de John Neschling. No elenco, entre outros, Marieta Severo, o próprio Ary, Otávio Augusto e Elba Ramalho. Fui assistir à nova montagem, em cartaz no Teatro Carlos Gomes. Fiquei encantado com a reação do público, que aplaude milhares de vezes e sai do teatro cantando a canção O malandro. Todos felizes e gratificados por terem visto uma coisa que preenche seus olhos e corações.

O espetáculo cumpre a função maravilhosa de resgate da memória de uma obra sensacional que tem uma dramaturgia exemplar e canções de uma importância sem limites para a música brasileira. A parte musical e vocal é perfeita. Os eficientes arranjos feitos pela maestrina Liliane Secco e a competência dos músicos em cena demonstram a sabedoria da direção musical de Cláudio Botelho. Os atores/cantores têm vozes de uma maneira geral qualificadíssimas, com destaque para a interpretação de Palavra de mulher, executada por Alessandra Maestrini, que é, com todas as letras do alfabeto, uma atriz competente e uma excelente cantora. Lucinha Lins mostra mais uma vez sua ótima condição de cantora e busca de uma forma caricatural, perigosa, corajosa, mas bastante segura e objetiva, a sua interpretação para o personagem Vitória. Alexandre Schumacher faz o grande malandro adequadamente e sua voz, quando não impostada, apresenta um timbre lindo.

Mauro Mendonça, um dos pontos altos do espetáculo, faz o seu Duran de forma delicada, criativa e eficiente. O policial contraventor de Cláudio Tovar é interpretado com bastante veracidade. Lindo o trabalho de ator de Thelmo Fernandes no papel difícil e delicado de Geni. Porém, quando a canção tema é apresentada, já não se sente a mesma eficácia no canto.

As prostitutas e os malandros têm uma excelente atuação vocal e cênica, com destaque para a linda voz do ator Ronnie Marruda. Desnecessária a figura da criança que entra em cena, sujando a beleza da canção Uma canção desnaturada. Os figurinos algumas vezes são inadequados, principalmente no que diz respeito a acabamento, e às vezes retratam mais os gângsteres americanos do que a tradicional malandragem da Lapa. A direção cênica é eficaz e ágil, sendo que tanto os figurinos como a direção e o cenário são de Charles Möeller.

Inteligente a mistura das canções compostas para o filme e para a peça. O incrível é perceber a disposição e a coragem de produtores, diretores e artistas - e a visibilidade de patrocinadores - para remontar um espetáculo de importância para a dramaturgia musical brasileira. A obra de Chico é um patrimônio para a cultura e a história de qualquer país. O Brasil é uma nação abençoada por ter entre seus filhos alguém como ele, que veste a história de seu povo com tanta veracidade e poesia.


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[22/MAR/2004]


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