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Vamos viver juntos, meu bem?

 


Vamos viver juntos, meu bem?


Eu sei que esse é um assunto batido e que a humanidade vem falando sobre ele há milênios. Mas como as relações não acabaram nem vão acabar, achei que sempre é bom darmos uma refrescada nas reflexões.

Evidentemente existem particularidades, preferências e fórmulas adequadas para cada indivíduo, ou até para cada casal. Não existem receitas para dar continuidade a essa mania dilacerante do ser humano de: ''VAMOS VIVER JUNTOS, MEU BEM!''. Independentemente de preferências sexuais, de cor ou credo. E começa aí a grande epopéia.

Acho que por mais que as pessoas exercitem este ato, nunca sabemos ao certo a quantidade de movimentos que este simples desejo representa.

Começamos a viver 24 horas por dia o verbo dividir. A nossa criação ou talvez mesmo a genética não nos permite de forma alguma ter sabedoria para compreender claramente o significado deste precioso ensinamento. Não é fácil nem para aqueles mais humildes e menos ainda para os mais abastados.

Exemplo: dividir o espaço, desde a cama, passando pela TV, pelo banheiro, até chegar nas horas, nos interesses, nas prioridades, algumas vezes também nas contas, até nas dores e nas alegrias (frase usada em toda a cerimônia que oficializa esta reunião, diga-se de passagem, com muito acerto).

Chegamos à conclusão, mesmo que não muito clara, de que este talvez seja o verbo mais difícil de se conjugar em toda a gramática, não importando a língua falada: dividir.

Primeiro vem o impulso, a vontade de ficar junto. Mas depois do desejo realizado começam as dificuldades da convivência, do dia-a-dia, das invasões que muitas vezes são bárbaras, da perda do direito de estar só, só para nada, para dormir com as pernas abertas, pra ligar a TV no meio da madrugada, para ouvir uma música numa altura que para nós é importante ou para ficar nus, na mais profunda nudez que é a da alma, onde não precisamos de disfarces nem de educação.

Mas em alguns momentos, por incrível que pareça, conseguimos o quase milagre do equilíbrio das diferenças, o que significa respeitar por completo os desejos do outro, sem o menor medo de dizer NÃO. De dizer hoje eu NÃO quero dormir junto, hoje eu quero sair sozinho, ou hoje você vai sair com uns amigos e eu vou gostar, sem ter medo que vá ficar ofendido com o seu mais verdadeiro NÃO.

Poder escutar todos os NÃOS do outro sem se sentir nem um pouquinho magoado ou chateado, ou até menos amado ou menos respeitado.

Levar o dia-a-dia com graça, fazer do cotidiano algo que seja divertido, usar um código do humor para levar a chatice da rotina.

Quando conseguimos este ponto chegamos até a sentir falta daquela parceria. Por exemplo, assistir a algo que seja interessante e lamentar que o outro não esteja vendo, sentir um sabor diferente numa comida e imediatamente fazer com que o outro a prove. Olhar um pedacinho pequeno da coxa da amada (mesmo que tenha um pouquinho do raio da celulite) e sentir a sensação maravilhosa do desejo, tão forte como na fase da conquista. Lembrarmo-nos dos defeitos desse alguém e fazermos aquilo virar graça.

A vida nesses instantes fica com um sabor diferente, gostoso. Temos uma sensação de harmonia que, me parece, só acontece nas nuvens, com o toque das harpas angelicais. Chegamos mesmo a pensar que somos uma exceção a qualquer regra de convivência, que conseguimos finalmente a almejada e discutida fórmula. Sentimo-nos um herói num mundo de contínua guerra.

O difícil é manter este estado de companheirismo e cumplicidade.

Com o desgaste da vida, com os dissabores dos problemas do cotidiano, vemos que somos capazes de criar com facilidade implicâncias terríveis com certas atitudes insignificantes, com o nosso mau humor devastador e, principalmente, com a falta de tolerância ocasionada por nada e por tudo. Nós nos tornamos assassinos, matadores implacáveis de nossa harmonia, de nosso nirvana, que é estar bem acompanhado, amado e seguro sentimentalmente. Nós nos tornamos praticamente suicidas.

É impressionante a capacidade que temos de auto-destruição, quando percebemos que podemos estar cedendo um pouquinho do nosso ''tesouro'', chamado, sei lá, de espaço, de liberdade.

Quando percebemos ainda que podemos estar dependendo afetuosamente do outro, ou que estamos deixando com que alguém, mesmo que julguemos este ser especial, nos conheça, lá vamos nós, canibais de nós mesmos, e nos podamos, nos sabotamos e principalmente nos punimos.

Mas o que é mais engraçado: nos garantimos de nossa superioridade pondo a culpa invariavelmente no outro.

E sempre nos tornamos e mais uma vez provamos para quem quer que seja que o ser humano é o tal do ANIMAL SUPERIOR.


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[15/MAR/2004]


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