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Existe um tipo de artista que prefere andar na contramão da mídia, que não permite de forma nenhuma que sua vida seja invadida, e que não busca promoção pessoal e só está presente nos meios de comunicação quando tem algo profissional a divulgar.

O Evandro Mesquita é um desses caras.

Está há uns 20 anos no cenário.

Possui um talento tremendo como comediante, é dono de um tempo genial e de uma grande inteligência no ato de representar.

O Evandro é, com certeza, um dos grandes atores do gênero da comédia que temos no momento. Só sinto que ele ainda não tenha tido o reconhecimento merecido.

É difícil percebermos atores que sejam comediantes, e que não puxem para a caricatura e para o exagero na hora de fazer graça. A maioria subestima um pouco a inteligência do público, julgando ser preciso usar da obviedade, do contrário o público não se estrebucha de rir.

Já o Evandro é dono de um refinamento muito inteligente para finalizar aquilo que diz. Faz com que a comédia esteja presente muito mais no conjunto da ação do que naquele momento específico.

Talvez se ele não fosse tão carioca na alma e no comportamento poderíamos enxergá-lo numa diversidade maior de papéis, mas seu sotaque e forma de ser parecem não permitir esse tipo de ecletismo. Não podemos esquecer que houve grandes atores com estas mesmas características de Evandro Mesquita, como o genial Mazzaropi, por exemplo.

Com um currículo extenso, Evandro vem alcançando uma notoriedade no seu trabalho.

Começou em 72 no espetáculo Hoje é dia de rock.

Foi integrante do importante grupo teatral Asdrúbal trouxe o trombone, que lançou vários profissionais de sucesso, e mantém uma parceria artística com vários atores deste grupo até hoje, como Luiz Fernando Guimarães, Patrícia Travassos e Regina Casé.

Foi criador e responsável pela Blitz, um dos grupos de rock que melhor contam a história da nossa música pop. Até hoje a Blitz - um marco na nossa história musical - se mantém na memória das pessoas, sendo referência para vários artistas.

Fez alguns filmes como Menino do Rio e, mais recentemente, o grande sucesso Os normais. Na TV participou de algumas novelas e seriados.

Possui um talento enorme como escritor. Acabei de assistir a um espetáculo teatral escrito por ele, em parceria com Mauro Farias. Esse cara não existe contém uma sutileza e inteligência humorística invejável no texto, fora o show que o Evandro dá como ator. O espetáculo tem uma direção delicada e eficaz, com um cenário inteligente e uma trilha sonora das melhores que ouvi nos últimos tempos.

É muito prazeroso poder ir ao teatro e perceber que existem comédias de qualidade, com texto brasileiro, sem ser um caça-níquel óbvio, como na grande maioria.

Por muitas vezes percebemos artistas desviarem seu prumo, e até o seu talento, em busca de uma notoriedade que os levem por um caminho, de repente, mais fácil. Deixam de lado a integridade de sua vocação por medo de não alcançar o tal do ''sucesso'' e a almejada ''fama'', e se entregam a papéis completamente distantes de sua realidade como intérpretes e, principalmente, como artistas. Violentam sua crença sem dó nem piedade.

Até entendo que, muitas vezes, a tortura da espera por um bom lugar pode deixar um ser humano louco.

Mas quando temos a certeza de que aquilo que fazemos é verdadeiro, quando não temos medo da labuta e do exercício diário de ultrapassar obstáculos, sejam eles do tamanho que forem, principalmente numa área tão subjetiva como a artística, basta ter paciência, obstinação, crença no talento e no trabalho. Quando menos imaginarmos as coisas vão acontecendo; as recompensas aparecem como em um passe de mágicas.

Usando de persistência nesta profissão acabamos formando platéias que se identificam com a forma que encontramos de mostrar nossos pensamentos.

Percebe-se com clareza que o Evandro Mesquita teve todas as oportunidades para desviar a sua rota, mas não; preferiu ter calma e confiar no seu talento, que por sinal, ele tem de sobra.


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[01/MAR/2004]


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