Vem aí mais uma comissão parlamentar de inquérito, viveiro de vários caras que vão aparecer com outras caras, barbudas ou lisas. Abolidos o fio do bigode, a vergonha na cara e a palavra, reinará soberano o gravador, que registrou a conversa dos caras. Será preciso livrar a cara do cara para que ele não quebre a cara diante de um cara-de-pau.
Antes havia o fio do bigode, dado em garantia de negócio, indicando que promessa e dívida foram originalmente coisas masculinas. A barba surgiu como avalista da palavra. Em algum momento da história de nossa língua, o verbo não foi suficiente e invocou a solidariedade de um dos pêlos do rosto, um só.
Mas o fio de bigode pareceu pouco, e o rosto inteiro, conhecido popularmente por cara, foi chamado em garantia adicional: era preciso ter vergonha, mas em lugar específico, na cara! Capistrano de Abreu sintetizou magistralmente o conceito ético que tomava conta do consenso popular, ao resumir a dois artigos nossa prolixa Constituição: ''Artigo 1º. Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º. Revogam-se as disposições em contrário''.
Ao rastrearmos a origem das palavras, encontramos os primeiros registros de ''barba'', ''cara'' e ''vergonha'' ainda no século 13. ''Bigode'' chegou no século 15, dois anos antes do Descobrimento do Brasil, pois sua estréia na língua portuguesa deu-se no Diário da viagem de Vasco da Gama, em 1498.
A origem de ''cara'' remete ao latim cara, que designou originalmente o rosto, a face, vinda do grego kára, cabeça, e não apenas rosto ou face. Quer dizer, os antigos romanos já reduziram a cara à metade da frente da cabeça, embora adorassem um deus de duas caras, Janus, que não tinha nuca, apenas dois rostos, um que olhava para o futuro, outro para o passado.
''Vergonha'' veio do latim verecundia, palavra de domínio conexo com veritas (verdade); vera (verdadeira) e verus (verdadeiro) ou verum, de igual significado, mas do gênero neutro, inexistente em português, que tem apenas masculino e feminino. ''Bigode'', de origem controversa, nasceu de provável redução de um juramento dos antigos germânicos: bi God, ''por Deus''.
''Cara'' tornou-se sinônimo de indivíduo, que só pode ter uma. ''Ah, esse cara tem me consumido'', escreveu Caetano Veloso em Esse cara. E na cara do cara, ''olhinhos infantis'', ''olhos de um bandido'', em que a inocência é invocada para temperar o jeito ardiloso do pícaro, não para denunciar a criminalidade precoce.
''Cara a cara'' surgiu como método para descobrir a verdade, assim como ''acareação''.
Já ''cara de tacho'' designa a aparência que toma o desconcerto, diferente de ''cara de quem comeu e não gostou'', de quem nem sequer provou a comida do tacho. Neste caso, de cara amarrada para evitar que ela caia no chão, dá de cara com alguém com quem possa encher a cara no bar mais próximo.
Mas, adverte o povo, quem vê cara não vê coração.