O cartunista Bob Thaves resumiu, com a costumeira síntese do ofício, uma questão essencial. Frank & Ernest travam o seguinte diálogo numa farmácia: ''É um remédio milagroso: os frascos são fáceis de abrir''.
Ignoro se ele já fez alguma tira sobre as bulas, mas poderia ser semelhante ao da embalagem o critério da escolha do medicamento: o paciente pode entender o que diz a bula. Deixo a sugestão a esse time esplêndido de cartunistas que o camerlengo Ziraldo reuniu em nosso querido Caderno B. Graças a eles, começo o dia sempre pautado, fiel ao lema que o bibliófilo José Mindlin estampa em sua famosa biblioteca: não faço nada sem alegria!
Em recente exame da OAB perguntaram o que era camerlengo. Poucos acertaram: afinal, naquelas provas há muitas esparrelas, da língua ao direito! Ou arrioscas, para os eruditos; e ''pegadinhas'', para os simples. Mas, quem faz um bom curso, acerta no essencial e nos ornamentos.
As palavras que seguem freqüentam provas de português. Desconheço o propósito de quem as elabora, mas não é acertando exceções que se mede o conhecimento da norma. ''Uma súcia (quadrilha) de estrangeiros, aliada à corja (de malfeitores) local, afanou (roubou) o armentio (rebanho) do pampa, já atacado por abigeatários (ladrões de gado).'' ''A cáfila (de camelos) atravessou os quatro biocoros (regiões): o deserto, a pradaria, a savana e a floresta.'' ''A récua (rebanho) do fazendeiro era composta de alimárias (animais) gordas, algumas das quais foram atacadas por sanhuda (feroz) e faminta alcatéia (de lobos).'' ''Vendo aproximar-se a piara (porcos) medonha, o mosco (antigo sacerdote), estrafegando (rasgando) as poderes (suas vestes), deblaterou (gritou): 'Discirno (percebo), ocultas no meio da vezeira (manada de porcos), muitas alimárias (animais) anômicas (sem ordem) açuladas (atiçadas) pelo Coiso bleso (Demônio gago), não pelo pastor bondadoso (bondoso)'.''
Palavras de uso raro e coletivos que poucos conhecem infestam a língua portuguesa e já serviram de grife a modos de falar e de escrever que, por falsamente refinados, enganaram os incautos. Mas, em busca da simplicidade no estilo, não teremos caído no outro extremo, em excessiva simplificação, com o fim de, indulgentes com leitores despreparados, sermos cúmplices de ignorantes?
Este dilema é enfrentado todos os dias na imprensa, em escolas e em universidades, na publicidade, em documentos oficiais. Precisamos, porém, contrariar o famoso provérbio alemão: por que simples, se pode ser complicado? Ou, no original: Warum denn einfach, wenn es auch kompliziert geht?