Assim é, se lhe parece, título de uma peça de Luigi Pirandello, é também bordão para encerrar um conflito verbal que desaba sobre nós, transforman-do-se no que disse do amor Luís de Camões, depois musicado pela Legião Urbana: ''é fogo que arde sem se ver;/ é ferida que dói e não se sente;/ é um contentamento descontente;/ é dor que desatina sem doer''.
Pois arde, dói, descontenta e desatina verificar que personalidades de nossa vida cultural, política e econômica tropeçam tanto na língua portuguesa, fazendo tristes confusões de significado com palavras assemelhadas, às vezes homófonas, mas não homógrafas.
Homófona é palavra que tem o mesmo som de outra, entretanto com sentido e grafia diferentes, de que são exemplos censo (dados estatísticos) e senso (juízo, opinião), concelho (divisão de distrito) e conselho (recomendação), incerto (duvidoso) e inserto (incluído), arrear (encilhar o cavalo) e arriar (abaixar). Já sedo, do verbo sedar, é pronunciado com o e aberto: sédo. E ceda, imperativo do verbo ceder, é pronunciado com o e fechado, como em seda (tecido).
Homógrafa é palavra que tem o mesmo som e a mesma grafia de outra, mas significado diverso, de que são exemplos cedo (do verbo ceder) e cedo (começo do dia). A pronúncia de vogais abertas e fechadas obedece a certas variações dialetais do português falado no Brasil. E tais diferenças, se causam estranheza mútua, não impedem o entendimento. Gaúchos, paranaenses e catarinenses, de forte presença na vida brasileira, desconcertam os interlocutores de outros estados ao pronunciar Brasil com o l final sem som de u como em Brasíu, além do carregado r forte que falantes de outras regiões tão docemente suavizam.
O Brasil é cosmopolita, mas a maioria de seus políticos é provinciana, sobretudo nos atos de fala e de escrita. São criticados por serem monoglotas (falam e escrevem apenas em português), mas este não é o problema. Grandes estadistas também o são, falam e escrevem apenas na língua de seu país. O problema é o modo como os nossos falam e escrevem em português.
Depois de errar tanto em português, agora erram também em espanhol, como aconteceu com o novo passaporte brasileiro, integrado ao Mercosul (pronunciaremos Mercozul, já que não dobra- mos o s?), em que um esperto, mas não experto, depois de ofender a língua de Camões, vilipendiou também a de Cervantes, cometendo cinco erros de espanhol em três linhas!
É assustador: quem assim escreve toma decisões que afetam a vida de todos nós!