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Antes de entrar no elevador


Faz 28 anos que a atriz Anecy Rocha morreu tragicamente no poço de um elevador. Seu irmão, o polêmico e celebérrimo cineasta Glauber Rocha, declarou na época que a irmã não caíra, tinha sido empurrada. Será que já assolava os corredores a advertência ''antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo está parado neste andar''?

Essa admoestação, com poucas variações de estilo, infesta nossos edifícios. Se chamassem um redator qualificado, as frases não destoariam tanto da clareza, da concisão, da coesão, enfim, do modo bonito que o brasileiro tem para se expressar.

Não foi chamado porque no Brasil, em se tratando de inscrições e avisos públicos, a língua portuguesa é sempre a primeira vítima. Aliás, também outros idiomas sofrem em nosso país desleixos semelhantes.

Outro dia um leitor lembrava que rainhas chamadas Elisabeth aparecem identificadas em placas como Elizabet, Elisabete, Elisabethe etc. Que estranha forma de reconhecimento! Nem o nome das homenageadas foi escrito corretamente!

Alguns avisos, entretanto, são escritos com objetividade e concisão, de que é exemplo o clássico ''cuidado com o degrau''. Se fosse aplicado método semelhante, a advertência seria mais ou menos a seguinte: ''Cuidado com o elevador!''. Ou então: ''Antes de entrar, veja se o elevador chegou!''. Ou ainda: ''Cuidado! Se o elevador não chegou, você corre risco de vida''.

A advertência, aliás, pode ser expressa de outra forma (risco de morte), pois se a vida está em risco, a morte ronda o usuário e, bem antes da meia-noite, como avisou outro cineasta em filme famoso, o elevador levará, não apenas sua alma, mas também sua língua.

José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, surgiu na década de 1970, quando explodiu a venda de elevadores. E recebeu diversos prêmios por À meia-noite levarei sua alma. Se a intenção é assustar a pessoa que vai tomar o elevador, invoquem o cineasta, inscrevendo advertência igualmente sinistra, mas pelo menos artística.

Há nas livrarias uma demanda crescente por livros que ensinam a escrever. Um deles já vendeu 12e edições. Seu autor é Antônio Suárez Abreu. Aposentado pela USP, atualmente é professor da Unesp. Seu livro tem apenas 168 páginas e está no catálogo da editora Ática com o título de Curso de redação.

Se os redatores desses avisos tivessem lido ao menos o capítulo dois de seu livro, não escreveriam tão mal. Ele dá uma aula muito clara entre as páginas 17 e 30, sob o título Textualidade e coesão: mecanismos de coesão textual.

A partir de exercícios simples, constituídos de duas sentenças, diz ele, ou melhor, escreve: ''A maior parte das pessoas constrói razoavelmente a textualidade na língua oral, mas, quando se trata de escrever um texto, em geral se limitam a usar as palavras 'mesmo' e 'referido', produzindo seqüências do tipo: ''João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Na referida cidade, o mesmo disse que a Igreja continua a favor do celibato''. O professor sugere soluções: Varsóvia pode ser substituída por ''lá'', ''capital da Polônia'', e João Paulo II por ''papa'', ''ele'' etc.

À semelhança do dito de Auguste de Saint-Hilaire - ''ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil'' - precisamos exterminar esses erros públicos, como esses exibidos à porta dos elevadores, porque dão sinistras lições por métodos subliminares. Muitos são empurrados, caem ou se suicidam no poço da ignorância.

Qualquer profissional precisa fazer uso intenso da língua escrita nas mais diversas situações. Primeiramente o rádio, depois a televisão, e agora o celular, deram a impressão de que a escrita seria desnecessária. Deu-se o contrário. Nunca foi tão urgente saber escrever.


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[07/MAR/2005]


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