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O baixo clero venceu os cardeais


O baixo clero sacramentou o nome do deputado Severino Cavalcanti contra a vontade dos cardeais dos partidos e do governo. Na recente eleição para a presidência da Câmara, ressurgiram palavras que mais pareciam tratar da sucessão no Vaticano e não no Brasil. Baixo clero, sacramentar e cardeais foram as mais utilizadas. Clero é palavra que veio do latim clerus, forma adotada pelos romanos para o neologismo grego klêros, dado, pedrinha, pedaço de madeira.

Passou a designar o estamento eclesiástico que abriga sacerdotes e padres porque em Bizâncio as pessoas que ocupavam tais funções recebiam um lote ou herança, originalmente definida em sorteio: os dados, de pedra ou de madeira, eram postos num vaso ou num capacete, semelhando o moderno recipiente das loterias onde são colocadas bolinhas numeradas.

Para pertencer ao clero, o indivíduo era e é ordenado padre pelo bispo. A ordem é um dos sete sacramentos. Os outros seis são o batismo, a crisma, a eucaristia, a confissão, a unção dos enfermos e o matrimônio. Alguns são designados também por outros nomes: confissão é sinônimo de penitência; unção dos enfermos, de extrema-unção.

O batismo está presente em muitas outras acepções, dando conta de primeiro ato decisivo na vida de uma pessoa, de que é exemplo a expressão batismo de fogo, o primeiro combate travado pelo soldado.

Embora mais raramente, também o último aparece como sinônimo de que não há mais esperança para a pessoa. A Igreja, entretanto, mudou o nome de extrema-unção para unção dos enfermos. Destinado a moribundos desenganados, o sacramento teoricamente só poderia ser administrado uma vez na vida, à beira da morte. Com o progresso da medicina, muitos moribundos se recuperavam, contrariando o adjetivo ''extrema'', anteposto à ''unção''. Daí a providência, aliás muito pertinente, de mudar a designação para ''unção dos enfermos''. E afinal a crença sofreu variação importante: em vez de passaporte para o outro mundo, aquele do qual ninguém jamais retornou, apoio da fé para ajudar na recuperação da saúde.

Mas por que adjetivar o clero parlamentar como baixo clero? Ao designar o conjunto de parlamentares desconhecidos ou pouco influentes como baixo clero, a imprensa recorreu outra vez à linguagem da Igreja. Nem todos os padres são Antônio Vieira, Cícero Romão Batista, Frei Caneca ou Frei Betto! De forma parecida, há um contingente quase anônimo de parlamentares, obrigados a seguir decisões de lideranças, recomendações ou ordens dos cardeais dos partidos para sacramentar tais ou quais decisões.

E aí entramos nas duas outras palavras: o verbo sacramentar e o substantivo cardeal. Sacramentar veio de sacramento, quantia depositada diante das estátuas dos deuses, como adiantamento da remuneração prometida à divindade em caso de a reivindicação ser atendida. Como Roma era absolutamente democrática e republicana com todos os deuses do mundo, até a Porta era deusa. E ocorriam situações curiosas: se o fiel não fosse atendido, a Porta teria ficado surda às súplicas e era objeto de chutes, imprecações, ofensas, punições. Na eleição do atual presidente da Câmara, o Executivo, surdo como uma porta aos pedidos dos parlamentares do baixo clero, pagou o preço da ave da derrota, no caso um pato, ''pagou o pato''.

Já cardeal, do latim cardinalis, veio de cardo, gonzo, eixo, de onde derivou o sentido de função importante. Os cardeais elegem o papa, autoridade máxima. Ao contrário, porém, do que aconteceu na Câmara, na Igreja o baixo clero não manda em ninguém, seguindo a velha ordem: manda quem pode e obedece quem precisa. Nem falta a tonsura para alguns parlamentares ficarem ainda mais parecidos com o baixo clero.


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[21/FEV/2005]


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