Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha. Este provérbio, de sutil complexidade, combina arrogância e modéstia em doses iguais. Recomenda reverente silêncio diante de quem fala. Mas quem o profere, põe-se no mesmo nível do ouvinte. Afinal, os dois são burros.
Quem assim desclassifica o interlocutor, é o primeiro a admitir a mesma condição, reconhecendo, por caminhos paradoxais, que também é burro. Em resumo, tão logo o outro tome a palavra, abaixará as orelhas quem falou. A operação resulta, não em desclassificação, mas em ordenamento do diálogo.
Entre tantas curiosidades que rondam o berço da expressão, é de se registrar que uma das mais antigas versões é bíblica. Balaão espanca o burro (em algumas versões é a mula) para que prossiga. Mas há um anjo no meio do caminho, visível somente ao animal. Na terceira tentativa, o burro fala, recriminando a teimosia do dono. O episódio está narrado em Números, o penúltimo do Pentateuco, como é chamado o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia.
Bíblia e Pentateuco são palavras de origem grega: bíblos, papiro, papel; penta, cinco; teûchos, livro. O radical grego está presente também em biblioteca, designando originalmente caixa de livros. Qualquer intelectual pré-Gutenberg tinha como biblioteca apenas uma caixa com poucos livros.
Livro e burro sempre foram associados a falar e ouvir. Um registro igualmente muito antigo está numa das narrativas de Fedro, o culto escravo do imperador Augusto que traduziu e reescreveu fábulas de Esopo. Numa delas, um burro encontra uma lira, tenta tocá-la e, não conseguindo, lamenta a sorte do instrumento, que em vez de cair nas mãos de alguém capaz de extrair suaves harmonias, foi topar justamente com ele, burro, que nada entende de música.
Em outro autor latino, Luciano, um burro ouve lira e, parecendo entender, mexe as orelhas. Também Horácio, criticando espectadores de teatro, invoca Demócrito para dizer que, se o filósofo grego vivesse em Roma naquele período, se divertiria mais observando o público do que assistindo aos espetáculos, pois os autores pareciam contar suas histórias a um burro surdo. Como se vê, o autor lançou mão de uma dificuldade adicional, a surdez, com o fim de ampliar a ignorância dos criticados.
O burro fala também em divertida estrofe de Bábrio, o poeta grego que pôs em versos várias fábulas de Esopo. Um burro sobe no telhado de uma residência e quebra muitas telhas. Quando o dono o castiga, ele retruca, sentindo-se discriminado: ''no outro dia, quando o macaco fez a mesma coisa, você riu''.
Também Cícero perguntou: ''por que eu te ensinaria a ler agora, burro?''. Enfim, a metáfora que dá o burro como animal que simboliza por excelência a ignorância está presente em muitas outras línguas, de que é exemplo o ditado alemão: ''Man kann den Esel mit Atlasdecken belängen, er bleibt doch immer ein Esel'' (''pode-se cobrir o burro com um atlas e ele continuará sendo sempre um burro'').
Mas coube ao escritor brasileiro João Guimarães Rosa, que sabia ouvir e entender, não estrelas, mas animais, reconhecer a sabedoria dos burros, como no conto O burrinho pedrês.
Animais e homens filosofam sem parar em seus contos. Eis a justificativa: ''Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoiévski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão. No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua''.