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Nem que a vaca tossisse


O prazo fixado para requisição de compra maciça de material de consumo era improrrogável. Os quesitos exigidos na exposição das justificativas deveriam ser redigidos pelo autor da solicitação.

Havia mais. O total do dispêndio para a compra, sem licitação, do piche utilizado para recapear a calçada em frente à praça, onde estava o mais lindo chafariz do município, deveria ser analisado, item por item, até o dia seguinte, nem que a vaca tossisse.

A funcionária tropeçava nos empecilhos ortográficos. Foi quando recebeu por via eletrônica o aviso de que a universidade estava oferecendo um curso intitulado Português: Manuel de primeiros socorros. Foi a primeira a inscrever-se.

Na aula inaugural, o professor, depois de explicar que algumas normas ortográficas poderiam ser justificadas pela etimologia, pela pressão dos usuários da norma culta e pelo costume, disse uma coisa que a deixou estupefata: ''De outras, porém, ninguém sabe as razões, nem mesmo aqueles que as redigiram''.

Muito prática, perguntou o que deveria fazer quando tropeçasse na ortografia. O professor fez-lhe duas recomendações: que instalasse em seu computador versão eletrônica de um bom dicionário de Português e lesse cada vez mais. E ela deveria ler o quê? Livros, preferencialmente. Que compusesse sua dieta de leitura com obras de autores clássicos - como Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Eça de Queiroz e Machado de Assis - e com autores modernos e contemporâneos - como Graciliano Ramos, Erico Verissimo e Rubem Fonseca.

''E mulher, mulher não entra?'', perguntou uma aluna. ''Não me venham com cotas'', disse o professor, ''por mais que façamos todas as concessões exigidas, o saber será sempre elitista no mundo inteiro, em todos os tempos''. E acrescentou: ''Sempre foi assim: quando o povo chega a um patamar dos saberes disponíveis, é evidente que os pesquisadores estarão em outro, muito mais avançado. Na universidade, só é bobo quem quer; em outras instâncias, às vezes é compulsório, em vista de inevitáveis contaminações, como, aliás, ocorre agora no ensino fundamental. Lá os professores são obrigados a aprovar todos os alunos, os que sabem e os que não sabem''. Fez uma careta para concluir: ''O Brasil despenca nas listas de avaliação do mundo inteiro. Nossa juventude só ouve e vê, não lê nem escreve e ainda quer aprender. Assim não dá''.

''O Brasil tem grandes escritoras'', relembrou a moça. ''E quais delas você já leu?'', perguntou o professor. ''Assim, de chofre, não lembro o nome de nenhuma.'' ''Eu lembro. Mas leia os livros que elas escreveram não porque sejam mulheres, mas porque elas escrevem bem. É o caso de Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Patrícia Galvão, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, entre outras tantas...''

O professor fez ainda outra recomendação: ''Querem escrever melhor? Leiam jornais, revistas e comprem uma gramática para consultar sempre que necessário''. A seguir, disse que algumas dicas heterodoxas podem ser úteis. Assim, se o piche é passado no chão, só pode ser com ''ch''. E que o chafariz, jorrando na praça, semelha à chuva, com a diferença de que, em vez de cair, sobe. Chafariz, chuva, ambos com ''ch'', como o ''chuchu'' que precisa de chuva para crescer, ainda que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa aceite a forma ''xuxu'', por pressão dos costumes e dos feirantes.

Foi quando a menina das cotas informou, a propósito de exercício que requeria ''x'', ''z'' ou ''s'', que não encontrara ''coxinha'' nos dicionários, mas que naturalmente era com ''x'', pois deriva de ''coxa''.

Coluna inspirada em oficinas que Reinaldo Pimenta e o signatário estão ministrando no Instituto da Palavra, da Universidade Estácio de Sá.


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[26/JUL/2004]


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