A universidade, a indústria e o governo federal, os três agentes principais do projeto vitorioso do carro a álcool, ensejaram novas paisagens brasileiras. Do novo contexto brotaram palavras e expressões que vieram enriquecer a língua portuguesa, de que são exemplos treminhão e bóia-fria.
A imprensa noticiou semana passada que bóias-frias da região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, até então resignados com a temperatura das marmitas servidas durante os trabalhos temporários nos canaviais e também em laranjais, estavam reivindicando pratos quentes.
A embalagem, geralmente de alumínio ou isopor, utilizada para transporte de refeições, especialmente aquelas destinadas a fábricas e presídios, resultou no substantivo feminino ''quentinha'' para designar esse tipo de comida.
No meio rural, entretanto, os trabalhadores alimentados pelos patrões no local do serviço comiam pratos frios, tendo ensejado o surgimento de ''bóia-fria'', substantivo e adjetivo de dois gêneros.
A palavra ''bóia'' tornou-se sinônimo de comida por analogia com outro tipo de ''bóia'', que designa objeto flutuante na água, de que são exemplos as bóias das redes de pesca, feitas usualmente de cortiça, e as bóias de tanques e vasos sanitários, feitas de plástico. A bóia está presente também nos tanques de combustível de veículos automotores e nas caixas d'água.
A origem remota é o francês antigo, cuja forma dialetal bouée designava sinal flutuante. Antes, porém, o frâncico tinha baukan com o mesmo significado.
Bóia, comida, veio do verbo boiar e do substantivo bóia. Fez o seguinte percurso. Nas lavouras de café, o grão engelhado e cheio de gorovinhas, portanto defeituoso, flutuava durante o processo de lavagem.
A gíria militar, no afã de desqualificar a comida dos quartéis, denominou-a bóia por analogia com os grãos de feijão chochos que flutuavam no caldo de enormes panelas. Bóia passou, então, a denominar comida de baixa qualidade. E os trabalhadores recorreram à gíria militar para identificar as refeições fora de casa, feitas na roça, em prédios ou em fábricas. Já para os encarcerados, cumprindo pena em cadeias públicas, a comida servida por empresas terceirizadas substituiu bóia por quentinha.
Mas a bóia raramente era fria no meio rural. Um dos cuidados foi sempre servi-la quente. Entretanto, nos últimos decênios do século passado, multiplicaram-se no Brasil os trabalhadores que jamais tiveram direito de comer pratos quentes no almoço. O jornalista Murilo Carvalho foi um dos primeiros a registrar bóia-fria para designar esses trabalhadores rurais.
O processo que trouxe os bóias-frias trouxe também o treminhão, neologismo criado para designar enormes caminhões constituídos de várias carroçarias semelhantes a vagões, que trafegam sobretudo na região de Ribeirão Preto, servindo de transporte para a cana-de-açúcar. Como sua ultrapassagem é difícil, já existem placas rodoviárias advertindo para a presença de treminhões nas estradas. Os dicionários, que não registravam a nova palavra até recentemente, agora já a incorporaram ao léxico português, como fizeram, em suas novas edições, o Aurélio e o Houaiss.
Treminhão veio de trem. Os franceses tinham a palavra train já no século 12, em domínio conexo com a ação de trainer, arrastar, radicado remotamente no latim vulgar traginare, variante do latim culto trahere, este com o sentido de puxar, mover lentamente e com dificuldade.
O trem chegou ao Brasil em 1854, por mãos de Irineu Evangelista de Sousa, Visconde de Mauá. Treminhões e bóias-frias vieram mais tarde. E quando chegaram o trem já estava de partida, dando vez a caminhões e treminhões.