Caetano Veloso, à semelhança de outros criadores, flexibilizou a gramática, especialmente a ortodoxia do gênero em português, nos seguintes versos: ''Uma tigresa de unhas negras/ E íris cor de mel,/ Uma mulher, uma beleza/ Que me aconteceu./ Esfregando a pele de ouro marrom/ Do seu corpo contra o meu,/ Me falou que o mal é bom e o bem cruel''.
Os alunos aprendem na escola que tigre é substantivo epiceno, palavra que veio do grego ''epíkoinos'', pela formação, ''epí'', sobre, em cima, e ''koinos'', comum, pelo latim ''epicoenu'', com idêntico significado. Assim, comum-de-dois e sobrecomum são sinônimos de epiceno.
Lexicógrafos e gramáticos costumam seguir o mesmo padrão para explicar os substantivos epicenos. Os exemplos mais invocados são a águia, a mosca, o besouro, o gavião, a baleia, a pulga, o condor, o tatu, a borboleta, a sardinha, o crocodilo e o tigre. O leitor encontrará outras alternativas para epicenos, de que são exemplos caxaréu, cacharréu, caxarelo e caxarela, os três masculinos, designando o macho da baleia.
Um substantivo de gênero feminino pode mudar radicalmente de significado quando antecedido de um simples artigo. A palavra cabeça, quanto antecedida do artigo masculino, designa o líder de algum movimento, por exemplo, caso também de o caixa, que indica funcionário de banco ou a pessoa encarregada de lidar com o dinheiro, caso de Judas, entre os apóstolos, e do caixa de campanha nas eleições. A propósito, como Jesus está na moda, em livros e filmes principalmente, lembremos que seu caixa de campanha, Judas, suicidou-se depois de trair o cabeça do movimento.
Já capital é masculino para designar dinheiro, recursos financeiros, e feminino para indicar a principal cidade de um estado ou país. O cisma designa separação, rompimento, dissidência. Mas a cisma indica apenas desconfiança, obsessão.
O escritor J. J. Veiga tinha cisma com a palavra grama. Dizia que os gramáticos deveriam curvar-se ao gosto popular e aceitar grama como substantivo feminino, para o peso e para o capim. Argumentava que o uso começava na maternidade. Mãe nenhuma usaria grama no masculino para dizer quanto o pimpolho pesou ao nascer.
Reinaldo Pimenta, autor do delicioso A casa da Mãe Joana, ouviu numa padaria um inusitado exemplo de hipercorreção. O cliente, querendo caprichar no português, pediu ''200 gramos'' de presunto. O que ocorreu? O falante quis adotar a forma culta, mas tropeçou. Sabendo que grama é masculino para designar unidade de medida, fez o masculino no número (duzentos) e aplicou a mesma regra na palavra que lhe seguia. A hipercorreção dá-se quando o falante semelha esforçar-se para errar com certo método.
Outros exemplos de epicenos encontramos em ''o guia'' e ''a guia'' (documento, meio-fio da calçada e colar colorido de procedência africana); em ''o lente'' (professor) e ''a lente'' (vidro de aumento). Neste caso, quem explica as origens às vezes faz confusão. Professor foi designado lente, não porque usasse lentes, mas porque os primeiros professores muitas vezes se limitavam a ler aulas previamente escritas. Neste caso, veio do latim ''legente'', que lê. E a lente recebeu tal designação por sua semelhança com a lentilha, do latim ''lente'', declinação de ''lens'', planta, cujo diminutivo, ''lenticula'', resultou no português em lentilha.
Tigre serviu de base à formação de tigresa. Mas e onça? Designando moeda, veio do latim ''uncia'', duodécima parte da libra romana e também da inglesa. A designação do animal, porém, procede da supressão do ''l'' inicial do francês ''lonce'', em que se entendeu que o ''l'' servia de artigo definido e não integrava o vocábulo. A origem de onça, neste caso, é o latim ''lyncea''.