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A língua no alfaiate


Sinônimos e antônimos abandonaram nossos políticos. Deixaram as luzes da ribalta na companhia de seus antigos paletós e jaquetões. Os assessores lhes providenciam camisas, gravatas, abotoaduras e ternos elegantes, além de barbeiros e até massagistas. Mas e da língua portuguesa, quem cuida?

As mulheres vão ao cabeleireiro, tratam do rosto e das mãos, especialmente das unhas, escolhem uma roupa compatível com a ocasião e gastam horas diante do espelho antes de sair de casa. Mas não cuidam apenas da aparência. Estão falando com mais elegância do que os homens nas funções públicas. É só comparar.

Para os homens, tais cuidados são mais singelos, a não ser em ocasiões específicas, como antes de dar uma entrevista ao distinto público da televisão, mas de todo modo também para eles a aparência é importante.

Da mãe gentil, a amada, rica, bela e por vezes esquecida língua portuguesa, porém, poucos são os que cuidam. Por desconhecerem a ferramenta de trabalho, na modalidade da norma culta, muitos políticos, especialmente parlamentares, utilizam-se de um prosaico e simplório não, anteposto à palavra, para indicar o seu contrário. Assim, ouvimos e lemos ''não-aprovação'' de tal projeto, ''não-continuidade'' disso e daquilo, providência ''não-compatível'' e comportamento ''não-ético'', entre outras.

Tendo abolido ou pelo menos alterado para pior a regência de muitos verbos - de uns tempos para cá deram em acrescentar um desnecessário ''sobre'', logo depois dos verbos comentar e discutir -, figuras públicas infestaram nossa língua de construções estranhas, desjeitosas e, o que é pior, confusas.

Não bastassem os horrendos ''a nível de'', ''vou estar encaminhando'', um errante ''onde'' e ''penso de que'', de repente um inusitado ''não'' é sacado como curinga. É como se nossa língua, pródiga em tantas variações estilísticas, tivesse perdido sua notória riqueza vocabular e sintática. Sem contar que as mais complexas carências vêm sendo reunidas sob uma insólita rubrica: agora tudo é fome.

A exceção fica por conta do Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional. Neste caso, é fome, de verdade. Já existe, aliás, em nossa língua, uma metáfora sintomática do processo canibalesco que envolve leitor e autor, presente na expressão que usa o verbo devorar como sinônimo de ler. O signatário, porém, prefere que degustem suas colunas e livros. Devorar é engolir de uma vez só, ler rapidamente. Ler é um prazer. E a perfeição dispensa o tormento da pressa.

Vamos aos exemplos do fatídico ''não'' e examinemos alternativas mais elegantes, coerentes com as estruturas de nossa língua. Se um projeto não foi aprovado, foi reprovado, rejeitado. Não houve aprovação? Ora, então houve o seu contrário, a reprovação. O parlamentar era contra a continuidade? Logo, era favorável à interrupção, à suspensão. A providência não era compatível? Então, era incompatível, inconciliável. O comportamento não é ético? Logo, é antiético.

Existem complicações com os antônimos, mas em outras áreas. O contrário de pão ázimo não é pão doce. É pão sem fermento. O ''a'' inicial, à semelhança de outros prefixos como ''in'', ''i'', ''des'', ''de'' e ''re'' em tantos antônimos, indica ausência. No caso, de fermento, que em grego é ''zyme''. O mesmo ''a'' que indica negação está presente em ''assimétrico'' (sem simetria), ''asséptico'' (sem germes) , ''anônimo'' (sem nome), ''afônico'' (sem voz) e ''amorfo'' (sem forma), entre tantos outros.

Em 1990 o então ministro Rogério Magri trouxe o antônimo ''imexível'' para nossa língua. As críticas foram muitas, mas ele acertou em cheio. Feio seria dizer ''não-mexível''. Seus erros foram outros, como o de declarar que sua cachorra era um ser humano como qualquer outro.


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[22/MAR/2004]


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