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Palavras de Natal


A primeira refeição que aparece na língua portuguesa é o jantar, que originalmente era o atual café da manhã, o desjejum. Veio de jentare, do latim dos clérigos, radicado em jantare, do latim vulgar. Perdendo o ''e'', fixou-se no português ainda no século 12. A seguir entraram ceia, no século 13, e almoço, no século 14. A ceia, do latim coena, a última refeição do dia, era a mais suculenta.

No século 14, porém, o jantar mudou de horário, passando para o meio-dia. E o almoço, do latim alius morsus, outro bocado, veio a substituir o jantar, servindo, então, como café da manhã. Mordere, em latim, tem o significado de morder, beliscar, mastigar, comer. Morsus é o particípio deste verbo, e alius tem o sentido de outro. Portanto, alius morsus indicava uma refeição intermediária, entre a primeira e a última.

Com o passar o tempo, o almoço fixou-se ao meio-dia. E o antigo alius morsus, que permaneceu no mesmo horário, entre nove e dez horas da manhã, tomou o nome de outra refeição, a merenda, do latim merenda, radicada originalmente no grego meiromai, designando parte de uma recompensa que o agraciado fazia por merecer e que recebia em alimentos, mais ou menos como um vale-refeição avant la lettre.

Não foi apenas no português que a denominação das refeições mudou de nome ou de horário. No inglês, lunch também designou originalmente o almoço, passando depois a merenda, bocado, sentido que conservou no português lanche. O francês déjeuner designou originalmente tanto o desjejum, o atual café-da-manhã, como o almoço, que também na França mudou de horário, passando da primeira para a segunda refeição.

Com a implantação do catolicismo em todo o Império Romano, a partir do século 4, a ceia de natal tomou conta do Ocidente. A ceia já era a principal refeição de romanos e judeus. Tanto que Jesus celebra a Última Ceia ao entardecer de quinta-feira, num cenáculo, nos arredores de Jerusalém, pouco antes de ser preso, torturado e condenado à morte.

No século 13, portanto ainda no alvorecer da língua portuguesa, a ceia já era a refeição principal. No dia 24 de dezembro, passou a ser feita depois da Missa do Galo, no alvorecer do dia seguinte, pois era necessário guardar jejum antes da missa de Natal, quando a maioria da comunidade comungava.

Com o tempo, passou a reinar quase absoluto o Papai Noel, do francês Pére Noël, Pai Natal. Como passou a ter função de nome, veio a ser grafado com iniciais maiúsculas. Com o banimento do culto aos santos pela Reforma Protestante, cristãos holandeses espalharam pelo mundo a forma dialetal Sinter Klaas, que serviu de despiste à censura e se referia a São Nicolau, canonizado originalmente pela Igreja Ortodoxa Russa.

Já a imagem do Papai Noel como conhecemos hoje foi criada em 1931 por um sueco beberrão chamado Haddon Sundblom, atendendo a uma encomenda da Coca-Cola para conquistar o público infanto-juvenil. Papai Noel tornou-se um velhinho de barbas brancas, alegre, alto, gordo, vestido de vermelho e branco. Depois de sua estafante noite distribuindo brinquedos no mundo inteiro, descansava tomando garrafas do refrigerante. Antes, Papai Noel vestia-se de azul, amarelo, verde ou vermelho. No Brasil, este ano deve predominar o vermelho, cor em que fecharemos nossos balanços.

Por fim, presépio, do latim praesepiu, estábulo, curral, chegou ao português no século 14, já sem aqueles sentidos, designando esta espécie de instalação de Natal, concebida originalmente em 1223 por São Francisco de Assis, com personagens vivos. A partir de 1478, em Nápoles, foram utilizados manequins, e foi esta a forma adotada por toda a Europa, depois espalhada pelo mundo inteiro pelos missionários.


[22/DEZ/2003]


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