Algumas coisas estão na cara. Sinônimo de rosto, a cara é invocada, entretanto, em situações que afastam o rosto e a face.
A cara fez uma longa viagem até chegar ao Brasil. Veio do grego kára, com escala no latim cara. Sua penúltima estação foi o português de Portugal.
Soa estranho escrever ''português de Portugal'', mas todos sabemos que sutis complexidades impregnam a cor local de nossa língua, dependendo de onde fincou raízes.
Na Europa, onde nasceu e se consolidou com estruturas que lhe deram identificações que a permitiram separar-se do latim, a língua portuguesa apresenta-se de um modo. Na Ásia e na África, de outros.
O Brasil reina absoluto em números de falantes e escreventes do português. Somos uma das maiores nações do mundo e a única, da primeira à quinta em tamanho, a ter seu território integralmente coberto pela língua portuguesa. As variações dialetais não impedem que o gaúcho entenda o nortista e vice-versa.
A cara invadiu a imprensa. E em tempos de tantas acusações, freqüentemente a cara dá as caras na palavra acareação, procedimento que consiste em pôr cara a cara testemunhas cujos relatos são conflitantes.
A cara, que usualmente é feminina, submete-se a intervenção que muda o seu gênero, transformando-se em substantivo masculino. Aparece transfigurada no cara, um indivíduo. Apenas um. E com uma cara apenas. Se tiver duas, eis que se mete em confusão.
Esperidião Amin era governador de Santa Catarina e, revestido de coragem, apareceu numa assembléia de professores em greve por melhores salários. Os professores, todos de cara amarrada, estavam com cara de poucos amigos. Ou com cara de quem comeu e não gostou. E o governador estava com cara de tacho. De cara tinha percebido que o propósito dos grevistas era deixá-lo com a cara no chão.
Alguns grevistas, sabendo que chegavam à assembléia apenas com a cara e a coragem, tinham bebido umas e outras antes, mas uns poucos dentre eles tinham enchido a cara. E entre esses últimos estavam aqueles que queriam que o governador quebrasse a cara. De cara fechada, muitos estavam dispostos a não permitir que ele livrasse a cara. Uns, mais comedidos, que iam com a cara do governador, apreciavam secretamente a coragem que o governador tivera de ali comparecer e dar a cara a tapa.
Tendo pedido a palavra, o governador ouviu da líder dos sublevados mais ou menos o seguinte: ''como é que o senhor tem a coragem de dar as caras por aqui?''
O governador não lhe questionou o tom coloquial do diálogo. E teve a humildade de justificar-se. Viera até ali para saber, sem intermediários, o que é que os grevistas queriam.
Seguiu-se grave acusação: ''na campanha o senhor prometeu uma coisa; no poder está fazendo outra; o senhor é um homem de duas caras''. E o governador: ''minha filha, se eu tivesse duas caras, a senhora acha que eu viria justamente com esta aqui?''
Esperidião Amin, em conseqüência de maus bocados pelos quais passou na vida, já não tinha pêlo algum no rosto. Nem barba na cara, nem cabelos na cabeça. Fazendo blague com a própria aparência, retomou o diálogo. E até a liderança do movimento acompanhou a assembléia em sonora gargalhada.
Desde então outros caras, mostrando outras caras, exercem seus respectivos poderes na República. Prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, embaixadores e ministros, entre outras autoridades, estão mudando a face do poder no Brasil.
A barba, os cabelos e o bigode dão outra cara ao Brasil, a começar pelo atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, imitado por dois barbudos recentes: o ministro Ciro Gomes e o embaixador Itamar Franco.
A cara é tão importante que Capistrano de Abreu disse que nossa Constituição, tão prolixa, deveria prescrever apenas que todo brasileiro deve ter vergonha na cara, revogadas as disposições em contrário.