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Dizer e escrever


Seu codinome era Stella. Mas o promotor que denunciou a mocinha que viria a ser a atual ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, escreveu que ela era a ''papisa da subversão'', a ''Joana d'Arc da guerrilha''.

A julgar pelas revelações assustadoras do livro A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, os algozes devem ter soltado a ''papisa'' e a ''Joana d'Arc da guerrilha'' por engano. Com efeito, flagrado em gravação, diz o ministro do Exército daquele período: ''A coisa melhorou quando começamos a matar''. Ao que o próprio presidente acrescenta: ''Esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser''.

O general Carlos Meira Mattos, do alto de seus 90 anos, senhor de textos claros e concisos, que trabalhou com Geisel no Gabinete Militar do governo Castello Branco, deu outra interpretação: ''Quando você diz que quer matar alguém, não quer dizer que realmente vá matar essa pessoa''.

O verbo matar nem sempre é utilizado em seu sentido literal. Lê-se no livro A vida como ela é, de Nelson Rodrigues: ''Você mata o serviço hoje e vamos ao cinema''. Quando os alunos faltam, diz-se que ''mataram as aulas''. Ou, mais precisamente, quando alguém diz que ''matou a pau'' um discordante numa assembléia, não significa que o eliminou, de fato, a pauladas. ''Dar um pau'', ''baixar o pau'' e ''tocar o pau'', entre outras, são expressões em que o pau é sinônimo de sarrafo ou pedaço de madeira, mas já sem o sentido literal. Pode-se matar a pau com palavras!

Porém, se matar não era assassinar, por que o presidente Geisel disse que aquilo era ''uma barbaridade'', que entretanto se impunha com o obrigatório ''tem que ser''? Não há dúvida de que o verbo foi utilizado, naquele contexto, com o sentido de eliminar os inimigos do regime por morte, com o fim de evitar o risco de eles abrirem a boca ''lá fora''. ''Abrir a boca'', no caso, não tinha e não tem o sentido de bocejar! E ''lá fora'' não indicava o pátio da prisão e, sim, o exílio ou o banimento.

Mas por que a ministra foi papisa no frescor da juventude? O normal é que um cardeal se torne papa já na terceira idade. Ou, agora, na melhor idade, eufemismo ainda mais terno para a velhice. Tenha o nome que tenha, a substituição de palavras, ressalvadas as delicadezas da referência, não evita outros males comuns à idade avançada.

Ora, o termo papisa foi usado com o significado de autoridade máxima da guerrilha. O promotor comparou a organização da guerrilha brasileira dos anos pós-64 à Igreja. E nela a jovem Dilma seria o equivalente ao que é o papa. Em se tratando de mulher, não era papa; era papisa.

E papisa veio do latim tardio papissa, palavra nascida para divulgar a lenda de que teria exercido as funções de papa, por dois anos, no século 9, certa mulher de nome Joana, disfarçada de homem. Tudo começara quando tal mulher, proibida de estudar por força das pesadas restrições à condição feminina na Idade Média, metera-se em roupas de homem e freqüentara as melhores escolas, primeiro na Grécia e depois na famosa abadia de Saint Germain-des-Prés, na França.

Algumas imprecisões e lacunas na bibliografia que trata da história dos papas fomentaram a difusão de que era verdade o que a lenda declarava. A Igreja chegou a silenciar ou admitir a existência da tal papisa por séculos.

Papisa entrou para a língua portuguesa em fins do século 18, vindo do francês, onde a forma papesse teve registro já em 1450.

Quanto à outra comparação, talvez o acusador desejasse à jovem brasileira o mesmo destino de Joana d'Arc, que foi queimada viva em 1431. Pois os subversivos eram hereges.

A herege ficou santa. E a subversiva tornou-se ministra. E nosso modo de dizer e de escrever refletiu a História, sempre caprichosa.


[10/NOV/2003]


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