E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Solucionática
Confusão de nomes

Informe JB
Xadrez partidário

Cartas
Iraque atual

Horóscopo
Horóscopo

Língua Viva
Estilo emperiquitado

Gente
Mulher-vinho

Charge Online

Márcia Peltier
Em causa própria

Caixa de Ferramentas

InSite
Transgênicos na web

Informe de Arte
De menos

Nas Páginas da História
6 de outubro de 2003

Informe Econômico
Do Oiapoque ao Chuí

Boechat
Cartas abertas

Gilberto Amaral
Em 2004

Marcus Barros Pinto
Por uma nação de grandes devedores

Marcos Caetano
Só acaba quando termina

Hildegard Angel
Magnolia no Porto da Pedra



Estilo emperiquitado


''O estilo é o próprio homem.'' A frase foi extraída do discurso de posse de Georges Buffon na Academia Francesa. Desde o século 18 tem servido para ilustrar a afirmação de que, à semelhança da fala, também a escrita tem variações, às vezes muito sutis, que permitem identificar seu autor.

Rui Barbosa, mesmo em artigos escritos especialmente para os jornais, esquecia que o público era outro e os leitores não tinham obrigação de fazer um curso, ainda que breve, para entendê-lo. ''O panfleteiro descachola de sua cachimônia estes comentários burlescos'', escreveu certa vez.

É um estilo que lembra o do professor Astromar, de Roque Santeiro, que ao chegar à casa da namorada pergunta: ''Posso penetrar?''. No contexto, a questão tem uma engraçada ambigüidade, pois a moça é virgem. Penetrar, dito em tal contexto, torna inevitável a referência implícita ao ato sexual. Na televisão, resultou em divertida cena, repetida a cada visita que fazia à namorada, vivida pela atriz Lucinha Lins.

Mas se penetrar é palavra de todos conhecida, variando, porém, o significado de acordo com o contexto em que aparece, ''panfleteiro'' e ''descacholar'' continuam ausentes dos dicionários. O grande jurista, querendo desqualificar o texto que criticava, referiu-se ao autor como ''panfleteiro'', recusando as opções que a língua portuguesa já oferecia desde o século 19: panfletista e panfletário.

Testei o estilo num café, com um garçom baiano. ''O mancebo poderia angariar-me pequena efusão escaldante de rubiácea?'' E, sem dar atenção ao espanto do rapaz, acrescentei: ''Mas sem desoxirribose, por obséquio''. Depois expliquei-lhe que tudo aquilo significava apenas um cafezinho sem açúcar. O garçom, que freqüentemente era xingado de ignorante por um advogado, quando viu seu algoz chegar, perguntou: ''Vai uma efusão de rubiácea sem desoxirribose?''. ''O mais difícil foi a desoxirribose'', me disse alguns dias depois.

A busca da ornamentação forçada leva a emperiquitar o estilo. Na década de 1960, provavelmente depois de 1964, o Brasil foi infestado por uma praga lingüística, logo acrescida ao famoso rol das dez que afligiram o povo egípcio ao tempo de Moisés. Técnicos e burocratas pavoneavam-se na imprensa, fazendo previsões e análises em linguagem que os jornalistas logo tacharam de economês. Tal jargão tornava incompreensíveis, até mesmo para seus autores, os comentários sobre a economia, ditos ou escritos.

Uma coisa é enfeitar o estilo, buscar a beleza e não apenas a objetividade. Outra, bem diferente, é emperiquitar o texto, o que denota deselegância semelhante à roupa incompatível com a ocasião. A clássica pergunta ''com que roupa eu vou?'' bem que poderia ser aplicada por analogia às variações da escrita. Perguntado o que achava da linguagem de Jânio Quadros, um taxista saiu-se com esta: ''A fala dele é como salsicha, ninguém sabe o que tem dentro''.

É possível rastrear, na moda e na linguagem, o nascimento da arte de emperiquitar-se. É metáfora que fez insólito caminho em nossa língua. Periquito é palavra de origem espanhola. Veio de perico, diminutivo de Pero, Pedro. A tradução literal de periquito, em espanhol, seria Pedrito. Em português, Pedrinho. Suas penas foram utilizadas em leques e serviram também para ornamentar os penteados. Assim, emperiquitar-se veio a designar o modo, em geral extravagante, com que certas mulheres arrumavam os cabelos na Península Ibérica, incrustando penas desse pássaro nos arranjos caseiros para enfeitar-se. Posteriormente, as penas foram utilizadas também em pulseiras, gargantilhas, brincos etc. E emperiquitar-se virou sinônimo de se arrumar para festas, como as de Natal e Ano Novo, destacando-se pelo exagero.

Entre os que mais emperiquitam o estilo estão as imobiliárias e os condomínios. Seus redatores devem seguir o famoso dito: por que o simples, se o complicado também serve?


[06/OUT/2003]


   Home > Colunas > Língua Viva

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas




Aumentar letrasDiminuir letrasVersão para imprimirEnviar matéria

Promoções

Serviços




Área do leitor



Assinaturas


Rio:
(21) 2323-1000

Demais estados:
0800-707-2000

Horário de atendimento:

• Segunda à sexta-feira de 6h30 às 18h

• Sábados, domingos e feriados de 7h às 14h