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A bolsa, o bolso, a bursite etc


Na Califórnia brasileira, cuja capital é Ribeirão Preto, o município que alçou o então prefeito Antonio Palocci ao proscênio da vida nacional, a bolsa e o bolso são conhecidos também por ''borsa'' e ''borso''.

E o dialeto caipira, pelo menos neste caso, é ''chique no úrtimo'', de acordo com expressão que de repente tomou conta do interior de São Paulo. Com efeito, bolsa, bolso e bursite têm origem comum no latim bursa. Já ''úrtimo'', em vez de ''último'', é forma dialetal sem amparo na etimologia. E chique veio do francês chic, elegante, bem vestido. Mas há outras etimologias, como o alemão Schick, forma abreviada de Geschick, aptidão. Pode ter vindo também de chicane, chicana, sutileza, ardil. Ou ainda do apelido de um moço pobre, discípulo de um pintor primitivo, o flamengo de origem holandesa Gérard David. Um de seus quadros mais conhecidos é O batismo de Cristo. Os trabalhos de Chic sempre agradavam ao pintor e, depois que o discípulo morreu, o mestre dizia dos bons quadros de seus alunos: ''É 'Chic'!''.

A bursa dos romanos era a nossa bolsa. Não as bolsas de valores, evidentemente, tema preferencial das reflexões e atos do agora ministro da Fazenda e de toda a equipe econômica, embora na Roma antiga o vocábulo designasse também o receptáculo para guardar denarius, a moeda de prata que serviu de origem para dinheiro, no português. Valia 10 asses de cobre.

O dicionário Aurélio, um dos mais consultados no Brasil, explica o que é bolsa em 13 pontos. Num deles, diz que bolsa é ''qualquer de vários tipos de saco com alça ou sem ela, de tamanho adaptado ao seu uso, e feitios diversos, ou de carteira, em geral com fecho, usado para guardar dinheiro, documentos, lenço, objetos de toalete, etc., e que podem ser feitos de couro, tecido, metal, plástico, etc''. Como se vê, o Aurélio põe vírgula antes de etc, o que é, no mínimo, controverso. Etc veio do latim et cetera, significando ''e outras coisas''.

Os romanos usavam também et reliquia como variante de et cetera. Reliquia significava ''e o resto'', inclusive o resto de comida que ficava entre os dentes, as migalhas. No cristianismo predominou o sentido de restos mortais dos santos (seus ossos) ou de objetos que lhes pertenceram.

O dicionário Houaiss é mais abundante no verbete. Indica 32 acepções. E não põe vírgula antes de etc, como se vê nesses exemplos: ''pequeno saco, de couro, pano, seda etc., para guardar o dinheiro em moedas''. ''Recipiente feito de couro, pano, plástico ou metal, com ou sem alça, no formato de saco, sacola ou maleta etc., usado para guardar, portar ou transportar objetos diversos''.

Bursite, entretanto, diz respeito a outro receptáculo, que afligiu mais e hoje aflige menos o presidente. É, segundo os dicionários, a ''bolsa, ou cavidade em forma de bolsa, que contém líquido viscoso, e situada em locais em que, sem a sua presença, ocorreria atrito''.

A Bolsa como instituição econômica refletiu as nefastas ameaças de que o Brasil quebraria se o candidato eleito fosse Lula. E o dólar seria visto apenas pelo telescópio Hubble. Acalmada essa Bolsa, o presidente Lula foi atormentado, ainda na posse, por outra bolsa, que conservou o ''r'' original, mas, acrescida do sufixo grego ite, que indica inflamação, a bursite. Em resumo, saiu a ''bolsite'' que jamais existiu e retornou a bursite, antiga companheira do presidente.

A bursite do povo brasileiro, porém, está atacando o bolso, a bolsa, a carteira, as contas. Os ganhos somem desses receptáculos rapidamente, bem antes que as contas possam ser pagas, embora todos vejam o dólar na mesma gangorra onde alguns sempre brincaram com ele. Tudo isso tem muito a ver com a língua, instrumento por excelência da cidadania, ainda que, como diz Guimarães Rosa no conto O espelho, ''quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo''.


[22/SET/2003]


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