O jornalista tinha apenas 23 anos. O príncipe, 24. Os dois foram autores do Hino da Independência do Brasil, inspirada criação de Evaristo Ferreira da Veiga e Barros. A música é de autoria de ninguém menos que o próprio Dom Pedro I. Os primeiros versos dizem: ''já podeis da pátria, ó filhos,/ ver contente a mãe gentil/ já raiou a liberdade/ no horizonte do Brasil''.
Fiel à concepção da norma culta vigente no século 19, o jornalista inseriu palavras rebuscadas nos versos que criou. Certamente é muito claro quando diz: ''Ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!'' Mas em seguida surge o primeiro volteio sintático: ''os grilhões que nos forjava/ da perfídia astuto ardil/ houve mão mais poderosa: zombou deles o Brasil''. Será que a ''brava gente brasileira'', tão longe de escolas e palácios, podia entender sintaxe assim arrevesada? ''Perfídia'' fica melhor como título de tango. ''Astuto ardil'' lembra chicanas jurídicas ou parlamentares, como as providências que são tomadas nos Parlamentos e no Judiciário para atravancar ações e pautas. Mas certamente o povo entendia outros versos, vazados com clareza e simplicidade: ''Vossos peitos, vossos braços/ são muralhas do Brasil''. Neste trecho, o autor seguiu a lição de Montaigne: ''o estilo deve ter três virtudes: clareza, clareza, clareza''.
Já o Hino Nacional, letra de Osório Duque Estrada, música de Francisco Manoel da Silva, começa com toda a força, nos acordes e nas palavras. Mas para quem estranha que no Brasil alguns objetivos deveriam ser cumpridos com maior velocidade, lembremos que há alguns indícios marcantes de que não temos pressa, de que são exemplos os versos que proclamam com orgulho que o Brasil está ''deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo''. Por isso, talvez, esteja demorando a acordar. E a falta de pressa começou bem antes. Com efeito, as treze naus comandadas por Pedro Álvares Cabral partiram de Lisboa a 9 de março, segunda-feira, e chegaram ao Brasil dia 22 de abril, quarta-feira. Houve grande festa na partida, marcada para domingo, dia 8, mas o mau tempo impediu que zarpassem na data planejada. Foi nossa primeira prorrogação.
Nosso Hino Nacional segue proclamando, porém, que o Brasil, além de ''gigante pela própria natureza'', é também ''belo, forte e impávido colosso''. ''Belo e forte'', todos entendem. Mas ''impávido colosso''? Joaquim Osório Duque Estrada, além de poeta, era professor e crítico literário. Talvez o duplo ofício explique vocabulário tão rebuscado.
Algumas palavras de nossa língua parecem esconder-se nos hinos. Pois somente ali aparecem. Os dois casos mais notórios são ''lábaro'' e ''garrida''. Lábaro é palavra que veio do assírio labar, ''vitória'', ''sucesso'', passando pelo latim labarum, ''estandarte'', ''bandeira''. E garrida procede de garrir, do latim garrire, ''tagalerar'', ''badalar'', ''alegrar-se''.
No fundo, o Hino Nacional é fiel a nossos usos e costumes. E, claro, amamos a mãe gentil, ainda que as rimas com o adjetivo ''gentil'' sejam tão pobres. Varonil, juvenil, anil, mil, Brasil. Antes elas, porém, do que o ''temor servil''. Afinal, ufanismos à parte, ninguém pode negar a grandeza e a importância de nossa pátria. E foi um jornalista que reconheceu, ainda no século 19, que ''do universo entre as nações/ Resplandece a do Brasil''. Era e é verdade.
Veio a República e coube a Medeiros de Albuquerque, da Academia Brasileira de Letras, redigir novo Hino para os novos tempos. Se algum examinador quiser complicar a vida de qualquer candidato num exame, é só pedir que explique o significado de ''labéu'' nos versos: ''este canto rebel que o passado/ vem remir dos mais torpes labéus''. É melhor ficar com o lábaro estrelado da mãe gentil.