Quando se quer dizer que alguém é um leitor ávido, devorador de letrinhas, costuma-se apelar para esta hipérbole: ''Lê até bula de remédio''. A expressão dá o recado pretendido, mas, talvez sem querer, sugere também que o tal leitor farmacêutico não é dos mais exigentes com a prosa. Isso porque bulas de remédio são na maioria das vezes peças de uma aridez aterradora, em que clichês batidíssimos se combinam ao hermetismo do jargão acessível a meia dúzia de homens de branco para criar um composto que pode ser prejudicial à saúde lingüística dos incautos. Um exemplo é esta frase quase obrigatória: ''
Ao persistirem os sintomas, consulte o seu médico''.
A questão vem do leitor Fernando Celso de Mattos, de São Paulo. Ele escreve para dizer que sempre julgou errada essa construção, acreditando que o correto seria ''A persistirem os sintomas...''. No entanto, dia desses, ao embicar seu carro num estacionamento, veio-lhe a dúvida. ''Observei duas frases de advertência que me fizeram repensar se 'a persistirem' estava mesmo correto: 'Ao entrar, acenda os faróis baixos' e 'Ao sair, dê preferência ao veículo que está entrando'.'' Afinal, devemos usar a ou ao antes desse verbo no infinitivo?
A resposta é: depende. O uso de ao é perfeito nas frases do estacionamento, mas fica desajeitado - para não dizer errado mesmo - no conselho da bula. Por quê? Trata-se de uma diferença de funções gramaticais, claro, mas antes disso pode-se falar numa distinção lógica, de sentido, entre as mensagens.
''Ao entrar, acenda os faróis baixos'' e ''A persistirem os sintomas, consulte o seu médico'' são construções que têm em comum o fato de usarem orações subordinadas reduzidas, ambas com verbos no infinitivo. As semelhanças terminam aí. O sentido da oração subordinada no primeiro exemplo é temporal: ''ao entrar'' quer dizer ''quando entrar''. Já ''a persistirem'' tem sentido condicional, isto é, poderia ser trocado por ''se persistirem'' ou ''caso persistam''. Daí a diferença. No português moderno, o artigo é praticamente obrigatório no primeiro caso, mas não tem lugar no segundo.
Outros exemplos de oração reduzida temporal são: ''Ao levantar vôo, o velho teco-teco sacolejava''; ''Ao acordar, lembrou-se do compromisso''. Agora note-se como é diferente o sentido das orações subordinadas, ambas condicionais, nestes casos: ''A serem verdadeiras as alegações, o nobre deputado merece ir para a cadeia''; ''A julgar pelo que vimos no primeiro tempo, o empate será um ótimo resultado''.
Uma provável explicação para o erro das bulas - que, como diz outro clichê, explica mas não justifica - é a interpretação da oração ''Ao persistirem os sintomas'' como temporal. O argumento falha como justificativa por uma razão de lógica: não existe um momento preciso a partir do qual se pode dizer que os sintomas persistem. A persistência, por definição, é uma ação que se espicha no tempo. Ninguém diz ''Quando os sintomas persistirem...'' ou ''Os sintomas persistiram à meia-noite e meia''. O que se deseja dizer é que, se os sintomas persistirem por um tempo razoável, mas sempre indeterminado, o paciente deve consultar seu médico.
Para quem ainda tiver dúvida, uma saída simples é trocar o infinitivo pelo gerúndio. Este serve tanto para as subordinadas reduzidas de tempo quanto para as de condição, tanto para ''Entrando, acenda os faróis'' quanto para ''Persistindo os sintomas, consulte o seu médico''. Os proverbiais leitores de bula agradecem.