Há quem chame o Jaime – qualquer Jaime – de Jãime. Outros pronunciam esse nome com o a aberto, Jáime. Temos aí um bom exemplo da diversidade da língua falada, diante da qual recomenda-se uma postura humilde. Os esforços por uma pronúncia universal pertencem a uma fase primitiva dos estudos da língua e cabem hoje no escaninho do puro preconceito cultural. Simplificando um pouco as variações, no Nordeste o pessoal tende à abertura da vogal pretônica, falando, por exemplo, Nórdeste – coisa que, segundo os velhos sábios, não deveríamos fazer. Enquanto isso, muita gente no Sul ainda resiste a pronunciar o l de fim de sílaba como se ele fosse a vogal u – resistência que, segundo os velhos sábios, todos deveríamos apoiar, mas não apoiamos: a maioria dos brasileiros deixa a língua bem longe do céu da boca e fala Súu sem a menor dor na consciência. Quem está errado?
Ninguém, naturalmente. Imaginar que um país com as distâncias geográficas e as desigualdades sociais do Brasil possa adotar uma única pronúncia é um delírio totalitário, nada mais. É nesse contexto, e tomando cuidado com julgamentos apressados, que devemos ler a carta de Mário Cunha, um leitor atônito com a decisão tomada pela TV Globo – pois é de decisão que se trata, visto que qualquer variante sumiu do ar – de chamar Roraima de Roráima, com o a mais aberto possível.
“Socorro! Ajude-me, pois acho que meus ouvidos enlouqueceram! Passei a vida inteira ouvindo dizer e dizendo Rorãima, mas, de uns tempos para cá, não sei por quê, o pessoal da Globo resolveu colocar um acento agudo na pronúncia do pobre estado que, invariavelmente, virou Roráima. Ou eu muito me engano ou a pronúncia correta manda que os ditongos sejam emitidos de modo claro e correto. Por favor, comente o fato, dê-me sua opinião. Afinal, talvez seja apenas ranhetice dos meus velhos ouvidos acostumados ao som original.”
Nenhum comentário sobre a pronúncia de Roraima pode ser simples, Mário. Quando se fala em “som original”, resta dizer o que seja isso. O Houaiss registra que no início do século 20 os falantes brasileiros ainda se dividiam entre três pronúncias: Rorãima, Roráima e, acredite se quiser, Roraíma. As duas primeiras formas têm ditongos decrescentes, com a diferença de que um é nasal e o outro, oral. Já na terceira e hoje desusada pronúncia, Roraíma, o ditongo é crescente ou, dependendo da interpretação, nem é mais ditongo e sim hiato, cada vogal habitando uma sílaba própria.
Situado entre falantes mineiros e cariocas, eu também cresci, como o leitor, ouvindo o estado do Norte ser chamado de Rorãima. Também me soa mal a opção prosódica da Globo. Esse Roráima que habita o discurso de William Bonner, Fátima Bernardes, moças do tempo, repórteres – esse Roráima me parece coisa de português. Refiro-me a um nativo de Portugal, não à língua que compartilhamos. Em Lisboa, o nosso andãime é andáime, a nossa fãina é fáina. A diferença entre o espírito português e o brasileiro é tão clara nesse caso que influencia até a ortografia oficial: o que aqui é “qüinqüênio”, lá é “quinquénio”. A tendência da língua brasileira à nasalização dos ditongos seguidos de m ou n chega a tal ponto que a maioria de nós ignora a pronúncia recomendada pelos sábios e transforma o adjetivo ruím em rúim. Mas não irei ao extremo pouco razoável de dizer que Rorãima é que está certo. Não existe o “certo”.
O que me incomoda na opção da Globo é exatamente isso. Eles parecem convencidos de que existe o certo, e de que o certo é Roráima. Por quê? Será que os roraimenses – o que estaria longe de ser uma boa justificativa – falam assim? Será que andaram consultando um foneticista luso? Já que a diversidade da fala brasileira foi expulsa da telinha hegemônica, seria importante saber que critérios nortearam essa escolha. E, claro, cobrar coerência: que de agora em diante todos os Jaimes sejam chamados de Jáime no Jornal Nacional.
Você e eu
E já que falamos em Jaime, segue uma dúvida do leitor Jaime Simon Ades: “Um amigo meu teimou que a maneira correta de falar é ‘entre eu e você’ ou ‘entre você e eu’. Eu tenho certeza que é ‘entre você e mim’ ou ‘entre mim e você’. Estou apelando ao seu e-mail para tirar essa dúvida”.
É você quem tem razão, Jaime. Na língua padrão, o pronome “eu” só deve ser usado quando desempenha o papel de sujeito. É o que se chama de pronome pessoal reto. A frase estaria correta se fosse, por exemplo, “entre você pedir e eu atender há uma boa distância”. Mas como não há verbo, e portanto não há sujeito, deve-se dizer “entre mim e você”. “Mim” é o chamado pronome pessoal oblíquo. Pela mesma razão, dizemos “recitou versos só para mim”, mas “recitou só para eu ouvir”. Na língua informal, tudo isso é fluido, como sabemos. Essas são as regras clássicas.