Armando Nogueira
Um país fora de área...

Coisas da Política
Quem acelera, às vezes atropela

Tostão
Indagações e preocupações

Informe JB
Vale-tudo

Cartas
Deputados

Horóscopo

Língua Viva
Onomatopéia? Nham-nham...

Contos Mínimos
O jovem poeta

Millôr Fernandes
Cuidado, Lula, a humanidade é ingrata. Se Noé não a tivesse salvado do dilúvio não teria sido chamado de antediluviano.

Gente

Charge Online

Márcia Peltier
Despedida

Emir Sader
Atas de Porto Alegre

Fritz Utzeri
O soldado sem culpa

Augusto Nunes
Faltam figurões nas cadeias

Nas Páginas da História
Há 110 anos

Informe Econômico
Sinal dos tempos

Boechat
Chegou na frente

Geração
Fulano de tal

Gilberto Amaral
Hora de gala

Visões da Cidade
Esclarecimento necessário

Estilo Iesa
Eles estão no alvo










Onomatopéia? Nham-nham...

Onomatopéia é um nome complicado para um fenômeno lingüístico delicioso e simples, talvez o mais básico na história das línguas: a imitação aproximada dos sons naturais. Falamos tantas onomatopéias o tempo todo – algumas já oficializadas, como “tiquetaque”, outras ainda com sabor de subversão e molecagem, como “ploft” – que a leitora Ofélia Crim, perdida no meio da barulheira, mandou um pedido de socorro: “Estou em dúvida sobre como escrever onomatopéias. Tiquetaque (ou tique-taque), por exemplo, já encontrei junto, separado, ou nem encontrei. E fonfom? E piu-piu? Tem hífen, não tem, fiquei grilada. Existe alguma regra ou a onomatopéia é livre? Escrevi um texto cheio delas, mas escrevi insegura. O som tem uma palavra correta, correspondente?”.

Como se vê, a dúvida de Ofélia se prende à grafia correta, ou mais aconselhável, para as palavras que tentam imitar sons naturais. É claro que essa preocupação não nos passa pela cabeça quando as usamos na linguagem oral. Acontece que as onomatopéias são, antes de tudo e por definição, a apoteose da oralidade. A língua como brinquedo, instrumento lúdico, é realçada mais do que nunca quando – adultos sérios e cheios de idéias puramente convencionais, abstratas, sobre a relação entre palavras e coisas, entre som e ortografia – agimos como um bebê que chama cachorro de “auau” e galinha de “cocó”. Nesse sentido, a resposta a Ofélia é: sim, as onomatopéias são livres, pode se esbaldar com elas. Usadas na hora certa, sem exagero, dão graça e espontaneidade a qualquer discurso.

Isso não quer dizer que as imitações sonoras escapem por completo ao reino das convenções. Quem quiser escrevê-las “certinho” deve consultar o dicionário. Encontrará muitas que já foram incorporadas ao vocabulário “oficial” com grafia consagrada, como “chuá”, e outras que, mais consagradas ainda, como “tiquetaque”, deram origem a novas palavras (“tiquetaquear”, “tiquetaqueante”), as chamadas onomatopéias gramaticalizadas. Mas nem aqui existe consenso. Também se encontram na língua viva variantes como “xuá” e “tique-taque”, com hífen – ou mesmo “tic-tac”. E nada seria mais cricri do que implicar com essas grafias. Erro? Mas onde, no caso de morfologia tão brincalhona, estaria a norma? Que convenção ortográfica poderia ter usado Fernando Pessoa ao escrever, na pele de Álvaro de Campos, um verso como este: “Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!”?

Nossos principais dicionários registram incontáveis onomatopéias: “atchim” (embora prefiram “atxim”), “bué”, “chiar”, “clique”, “fonfom”, “pum” e “reco-reco”, por exemplo. No entanto, passam batidos – e não poderia ser diferente, dada a riqueza quase inesgotável desse universo – por outras tantas: “cabrum”, “cataplam”, “fiufiu”, “grunf”, “nham-nham”, “nheco-nheco”, “piupiu”. Todas, diga-se, grafadas aqui com bom senso, mas com certa dose de arbitrariedade também.

Para se ter uma idéia da importância do tema levantado por Ofélia Crim, a lista de ausências pode crescer se levarmos em conta que os dicionários não mencionam o caráter provavelmente onomatopaico de vocábulos como “ronco” e o suculento verbo brasileiro “estabacar-se”. Sim, eu sei, “ronco” tem linhagem nobre, vem do latim rhonchus, que por sua vez é filho do grego rhogkhós. Tudo bem, mas rhogkhós vem de quê? Cada um que julgue sua semelhança sonora com aquilo que nomeia. Já “estabacar-se”, que significa levar um tombo espetacular, estatelar-se, aparece como palavra de “origem obscura”. Hmmm, pode ser. Mas que tem cara de onomatopéia, tem.

Ecos da filarmônica

A enorme repercussão do artigo de domingo passado, sobre a diferença entre orquestras sinfônicas e filarmônicas, sugere que há mais melômanos por aí do que se imagina. Nem todos, porém, imunes ao equívoco das certezas inabaláveis. Uma parte dos leitores que fizeram reparos ao meu texto afirma que a diferença é muito simples: as sinfônicas seriam orquestras mantidas pelo Estado e as filarmônicas, por financiadores privados. Errado. Um dia foi assim, não é mais. As principais filarmônicas da Europa, a de Berlim e a de Viena, são estatais.

Outra parte dos que discordaram assegura que, historicamente, na origem das filarmônicas, todos os seus músicos eram amadores, não recebiam um centavo para tocar. Errado também: essas orquestras eram mantidas por Sociedades Filarmônicas, grupos de mecenas que se uniam por “amor à harmonia”, como dissemos, mas sua relação com os instrumentistas sempre foi profissional.

Quem afirma tudo isso é o diretor artístico e regente de uma das mais jovens filarmônicas brasileiras, a Orquestra Amazonas Filarmônica – sustentada pelo governo do estado do Amazonas, em mais um desmentido à tese do patrocinador privado. Luiz Fernando Malheiro concorda com minha conclusão de que a diferença entre sinfônica e filarmônica se perdeu na poeira da história, como a distinção entre “clube” e “associação” nos times de futebol. “Virou bagunça, os nomes são usados ao bel-prazer do freguês”, diz ele.

[02/FEV/2003]

   Home > colunas > lingua
Primeira Página