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Gerundiando

Resisti por algum tempo, mas não tem mais jeito: hoje vamos estar falando de um vício linguageiro em franca expansão - o gerundismo, também chamado por alguns cariocas de futuro paulista - para que os leitores possam estar tirando suas conclusões a respeito de um fenômeno que, se não abrirmos o olho, vai estar afetando a própria sintaxe de nossa língua de uma maneira que estará sendo irreversível. Eu evitava falar do gerundismo porque, tendo abordado o assunto em outras paragens, considerava-o batido. Foi a carta de Elias Fernandes Mourão, o último dos leitores a me cobrar uma opinião sobre o estranho tempo verbal, que me fez mudar de idéia.

Batido, o assunto talvez seja. Superado, não. Mourão coletou exemplos de gerundismo nos meios de comunicação e, entre outras pérolas, encontrou duas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: ''Quando sair do governo vou estar atuando politicamente'' (em 6 de outubro de 2002); ''Não acho que se deva estar cobrando essa posição'' (no dia seguinte). Mourão cita diversos outros casos, mas esses dois bastam para atestar a vitalidade da mania.

Costuma-se dizer que o gerundismo - que alguns chamam de futuro paulista por conta de seu caráter epidêmico às margens do Tietê, o que ainda carece de comprovação científica - teve origem em traduções preguiçosas de manuais de telemarketing. O original We'll be sending you, uma forma de construir o tempo futuro que faz sentido em inglês, virou ''Vamos estar lhe enviando'', que faz pouco sentido em português. A explicação tem lógica, especialmente se levarmos em conta que o gerundismo é consagrado entre secretárias e atendentes de 0800, mas não parece dar conta de todo o fenômeno. Por que será que Fernando Henrique, um intelectual insuspeito de ligação com a maldigerida cultura fast food que nos chega dos Estados Unidos, sucumbiu também?

Não estou entre os que tacham o gerundismo de erro puro e simples. A língua é tão plástica e tão diversa que nos recomenda usar com parcimônia essa noção de erro. Prefiro chamá-lo de vício. Além de espelhar uma sintaxe estrangeira, é construção desajeitada, que complica em vez de simplificar, usando palavras demais - ''Vamos estar lhe enviando'' - para exprimir uma idéia simples: ''Vamos lhe enviar''. Nem vale a pena entrar no mérito do gerúndio como fator de amolecimento e imprecisão do verbo. Essa era a opinião de Graciliano Ramos, que prescrevia seu uso apenas em último caso, mas o escritor alagoano não viveu para ver o gerundismo: sua implicância era com o gerúndio em si.

Há casos em que o português já usa, há muito tempo, uma construção semelhante às de FH: aqueles em que existe a necessidade de salientar uma ação contínua no futuro, geralmente paralela a outra ação citada na mesma frase. Por exemplo: ''Quando a encomenda chegar, ele estará viajando''; ''Se você quiser me visitar em março, vou estar esperando''. São casos bem específicos, relativamente raros. O resto é uma mania que só nos empobrece o estilo. Eu, se fosse você, estaria evitando.

Marqueteiros

O leitor Marcelo Mendes, que é tradutor em Belo Horizonte, mandou um excelente comentário sobre o neologismo ''marqueteiro'', nosso tema de domingo passado. A coluna, para quem a perdeu, era uma resposta à professora de redação publicitária Vera Marques, que andou incomodada com a onipresença do vocábulo no noticiário eleitoral. Discordei. Disse considerar ''marqueteiro'' uma palavra digna de elogio por dar conta, jocosamente, da ampliação desmesurada do campo de ação de publicitários como Duda Mendonça e Nizan Guanaes, subitamente convertidos em supermagos da política.

Mendes concorda, mas aponta um outro lado da questão: e se a idéia for apenas designar um simples profissional de marketing, sem intenção pejorativa? ''Acho que a dúvida que levou a publicitária Vera Marques a escrever à coluna'', diz ele, ''tem origem num péssimo hábito de meus colegas tradutores, geralmente mais afeitos à língua de origem - no caso, o inglês - que ao português. Em muitos textos técnicos, a palavra 'marqueteiro' aparece como tradução de marketer, que na verdade quer dizer tão-somente 'profissional de marketing', sem qualquer conotação pejorativa. A palavra refere-se não só aos publicitários como também aos executivos de marketing das empresas. Portanto, a confusão se instala porque a conotação pejorativa de fato existe em nossa língua já há algum tempo. Em nome da categoria, mea culpa.''

[19/JAN/2003]

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