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Incongruências

A lógica peculiar das línguas, que não se confunde em momento algum com a cartesiana, costuma render debates acalorados. Tivemos aqui um bom exemplo recente na questão da negação dupla em português. Existem, no entanto, pequenos bolsões do idioma que são ainda mais intrigantes: aqueles em que a própria lógica interna da língua é contrariada, sem que, no entanto, o elemento perturbador seja repelido pelos falantes. Pelo contrário, o intruso convive harmonicamente com o todo no papel de exceção. Os casos são muitos.

Se a exceção é sintática ou semântica, dá-se a ela o nome de expressão idiomática ou idiotismo (que, atenção, nesse caso não tem a ver com idiotice). Quando dizemos “o tal (do) português é uma bonita língua”, esse (do) não faz sentido sintaticamente. O uso, porém, o consagra. Note-se que não se trata de uma anomalia tolerada pelos gramáticos na língua informal, mas de um uso enraizado na norma culta. O infinitivo pessoal, do qual falamos há duas semanas, é considerado idiotismo por contrariar o princípio do infinitivo não flexionado.

Existem também as exceções que, tendo a ver com a formação das palavras, se refletem numa ortografia esdrúxula, mas que nossos olhos se habituaram a considerar normal. A esse tipo se costuma dar o nome de barbarismo. Trata-se de incongruência comum em palavras estrangeiras adaptadas ao português. O exemplo mais popular, disparado, é o vocábulo “gol”. A palavra inglesa (goal) virou “gol” mais ou menos quando (football) virou “futebol”, o que é ótimo. Mas, se quiséssemos ser estritos, o espírito da língua recomendaria “gou”. Como em “sol”, “bemol”, “anzol” e “arrebol”, a grafia “gol” pede um (o) aberto, (gól).

O problema se agrava quando se trata de formar o plural. “Gols”, que falamos e escrevemos o tempo todo, é um absurdo único na língua. O plural gramaticalmente correto seria “gois” ou “goles” - que, no entanto, soam ridículos aos nossos ouvidos. Sem mencionar que a hipercorreção poderia provocar tumulto em frases como esta: “Vampeta não marcou (goles) na Copa, mas tomou muitos (goles) antes de subir a rampa do Planalto”.

Atenção, ninguém está propondo aqui que se mude a grafia de “gol” ou “gols”. Caso mais grave é o da palavra “show”, incorporada ao português com um (sh) e um (w) que não existem no idioma (não existiam?), mas eu não sou maluco de defender “xou” ou coisa parecida. Só quero registrar que a língua tem seus caprichos, que a pureza é um ideal inalcançável, que o uso é soberano. Normalmente, quando os caprichos nos incomodam, o problema não está no idioma. Está em nós, que precisamos aprender a relaxar.

HEIN???

Nova York

Todo esse blablablá foi motivado por uma carta de Célio Campos, coordenador de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso, manifestando seu incômodo com a grafia “Nova York”, de uso amplo, geral e quase irrestrito na imprensa brasileira. “Sem preciosismos ou purismos idiotas”, diz ele, “o correto é Nova Iorque ou New York. Caso contrário, seria correta uma referência à Cidade Maravilhosa como Rio de January ou River of Janeiro. Ou, ainda, quando nos referimos a São Paulo, escrevermos Saint Paulo ou São Paul. O que achas?”

A argumentação de Célio confunde um pouco ao mencionar a adaptação de nomes brasileiros ao inglês, que tem lá suas próprias leis, mas ele interpretou bem as regras da grafia de topônimos. Em geral, ou adaptamos o nome inteiro - o que ocorre com lugares de forte expressão internacional, como Londres e São Petersburgo - ou não adaptamos nada, mantendo a grafia original de cidades e países menos famosos. A metrópole-alvo dos atentados de 11 de setembro está no primeiro caso, claro. Deveríamos chamá-la de Nova Iorque. O jornalista Marcos de Castro, autor de (A imprensa e o caos na ortografia), não se cansa de repetir isso.

Reconheço a incongruência e respeito a opinião de Célio e Marcos. “Nova York”, pensando bem, é um híbrido esquisito, provavelmente um caso ímpar de adaptação de topônimo pela metade. Mesmo assim, isso não me leva a abrir mão da grafia “Nova York”, e muito menos a condená-la. Por quê? Falando com sinceridade, não me parece uma bandeira importante, e acho que a esquisitice fica até bem como uma daquelas exceções mencionadas acima. Se a grafia é única, a cidade, principalmente depois de Osama, também o é.

[05/JAN/2003]

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