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Resposta ao Millôr: a crase existe!

Confesso que o desafio lançado pelo Millôr andou me tirando o sono. ''Existe mesmo a tal crase em português do Brasil, ou é apenas mais uma macaquice do português de Portugal?'', perguntou há poucos dias o humorista e filólogo (sabe-se lá qual das duas especialidades, entre as muitas que ele tem, predominava no momento) em seu quadrado aqui no JB. A provocação punha pimenta numa generosa nota de boas-vindas ao novo colunista de Língua Viva.

O problema é do tipo cabeludo porque, como se vê, ultrapassa a gramática. Não adianta dizer que a crase é necessária, que nos dois lados do Atlântico a preposição ''a'' continuará a se encontrar com o artigo definido feminino - o velho esqueminha a + a ou a + as - e que a química entre esses elementos os leva à fusão em ''à'' ou ''às''. Por exemplo: ''Vou à feira'', mas jamais ''à Feira de Santana'', pois o nome da cidade baiana não tem artigo. Seria igualmente inútil acrescentar que a fusão também ocorre quando a preposição ''a'' encontra os pronomes demonstrativos ''aquele'', ''aquela'' e ''aquilo''.

Essa resposta protocolar soaria correta e ridícula ao mesmo tempo. Claro que o Millôr está careca de saber tudo isso - eu posso falar, pois careca também estou. O problema que ele apresenta deixa a gramática para trás, invade o terreno da lingüística e vai bater naquela região nebulosa onde mora o espírito da língua. Aqui não colam os estigmas gramaticais de erro: o erro desfila orgulhoso, barriga de fora, grávido da norma do futuro. E agora? É verdade que no Brasil não temos o hábito de pronunciá-la, mas será que um dia a crase ficará obsoleta em nosso português escrito?

Estava mergulhado nessas graves ponderações quando, lendo os jornais de quarta-feira passada, topei com o anúncio de três quartos de página da ATL para o Dia dos Pais, assinado pela agência Salles D'Arcy. Tratava-se, lógico, de vender celulares. ''Deixe para dar o presente a noite. Só pro seu pai ver como o visor brilha'', dizia o reclame. Isso mesmo: sem crase em ''a noite''. Podia ser um erro casual. Podia ser também o início da resposta ao Millôr.

Era meu dia de sorte. Poucos minutos depois, num desses e-mails comerciais que proliferam como insetos, encontrei um bonito exemplar do deslize oposto: ''Você pode comprar à prazo, em suaves prestações''. Isso mesmo: com crase em ''à prazo'', embora a palavra, além de não ter artigo, seja masculina. Foi quando me ocorreu a tese que apresento agora.

Não, o português do Brasil não rejeita a crase. Apenas demonstra uma forte inclinação por rejeitá-la no lugar certo. Desaparecendo das frases ''dê o presente a noite'' e ''fique a vontade'', o acento grave que deveria indicar o casamento da preposição com o artigo feminino ressurge glorioso - e absurdo - em construções de rotina como ''entregas à domicílio'' e ''viagem à Orlando''.

E se for este o futuro da crase entre nós, declarar sua independência do artigo para se transformar numa espécie de preposição invocadinha, uma preposição de boné virado?

Por falar em erro...

Nem todo mundo se anima a encarar erros de português, por mais disseminados que eles sejam, com um olhar compreensivo. Para muita gente, as batatadas de crase citadas acima só apontam para a ignorância de quem as cometeu, não para qualquer idéia de futuro. Pode ser. É provável que a profecia da preposição de boné tenha apenas o valor de uma piada dominical. No entanto, que o erro é um dos fatores de mutação da língua, isso ninguém pode negar. Veja-se o caso da palavra "fígado".

Há versões ligeiramente diferentes para a origem de "fígado", mas a mais aceita - bancada pelo Houaiss, por exemplo - mostra que a etimologia pode ser uma bela comédia de erros. Tudo começou com a locução latina jecur ficatum, isto é, "fígado de ave engordada com figos" - que vinha a ser o mais apreciado, o de melhor paladar. Note-se que o dito órgão era jecur, e ficatum significava "farto de figo", mas em algum momento da passagem da expressão para o latim vulgar deu-se uma troca de papéis: sumiu o jecur e o que era coadjuvante, o adjetivo ficatum, passou a designar a coisa em si, já sem qualquer memória da fruta. Daí saíram o português "fígado", o italiano "fegato", o espanhol "hígado" e o francês "foie".

É ou não é engraçado? Quando o Seu Creysson se refere ao fígado como "figo", fazendo piada com um erro comum entre brasileiros iletrados, está mais próximo da sabedoria etimológica do que sonha o pessoal do Casseta & Planeta. É mais ou menos como se o adjetivo "crasso" - que significa "grosseiro", mas que no Brasil parece ganhar a vida como ajudante do substantivo "erro" e de nenhum outro - chegasse um dia a roubar o lugar do protagonista. "Sua prova está excelente, você não cometeu um único crasso", dirá, quem sabe, um professor de português do futuro. Mas chega de profecia por hoje. Registre-se apenas que às vezes os erros são como certos políticos: ficam respeitáveis com o tempo.

Gente superfaturada

Daí a justificar qualquer barbaridade com o argumento de que "o pessoal usa" há uma boa distância. O verbo "superfaturar", por exemplo, anda tão valorizado nos últimos anos, tão exposto na cobertura de sucessivos escândalos, que vem tentando virar aquilo que não é: um sinônimo perfeito de "exagerar" ou "superestimar". Dificilmente atingirá seu objetivo, mesmo em sentido figurado. "Faturar" é um verbo enraizado demais no campo da economia.

Apesar de tudo, ele faz o que pode. Dia desses, uma notícia de grande destaque na imprensa carioca informava que o governo Anthony Garotinho está sendo acusado de "superfaturar em 50%" o número de pessoas alfabetizadas no estado de 1999 a 2002. Doeu. "Superfaturar" significa "cobrar preço excessivamente alto" ou "expedir fatura de venda com preço acima do realmente cobrado". É possível superfaturar gente, sim, mas só em regimes escravocratas.

'Devemos de radicalizar?'

O leitor Washington Barbosa implicou com o título - "Devemos de radicalizar ou não?" - de um artigo de José Roberto Wright em sua coluna no jornal Lance: "Li, reli e algo não me soava bem. Não bastaria escrever 'Devemos radicalizar ou não?'. Eu já ouvi várias pessoas usarem tal estrutura gramatical, mas geralmente são engraxates ou guardadores de carro."

Está errado mesmo, Washington, mas a questão é enrolada. O professor Domingos Paschoal Cegalla lembra que o uso da preposição "de" após o verbo auxiliar "dever" encontra respaldo em autores clássicos, mas apenas quando a locução indica probabilidade. Exemplo: "Deve de ser muito penoso esse trabalho". Entre falantes do português moderno (vá lá, com a possível exceção de engraxates e guardadores de carro), a construção anda em desuso, mas não está propriamente errada.

O "devemos" de Wright é diferente. Como transmite a idéia de necessidade, não de probabilidade, poucos gramáticos hesitariam em lhe mostrar o cartão amarelo. Mas repito que a questão é enrolada. O ex-árbitro pode invocar a jurisprudência de Camões, que escreveu em Os Lusíadas: "Tu deves de ir... esperá-lo em cilada, oculto e quedo". A idéia aqui é de necessidade, mas a preposição comparece. Nessas horas não há nada melhor do que seguir o ouvido, que, no caso, recomenda mesmo o sumiço do "de".

HEIN???

FH e a 'persuassão'

"Eu tenho força de persuassão", garantiu Fernando Henrique Cardoso em discurso sobre a criação do Parque Nacional do Tumucumaque, no Amapá, mês passado. Repetiu várias vezes a palavra "persuasão" com a pronúncia errada, como se a sílaba "são" fosse precedida de consoante - um equívoco relativamente comum. Isso irritou o leitor Ubiratan dos Santos, que me escreveu pedindo: "Puxe a orelha do letrado". Está puxada.

[11/AGO/2002]

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