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Francês e inglês no morro

José de Assis Valente não esperou o Brasil ser campeão do mundo em 1958. Na terceira tentativa de suicídio, dia 10 de março, tomou guaraná com formicida e partiu. No dia 19, o baiano de Santo Amaro, que se radicara no Rio desde a adolescência, completaria 47 anos. Sua primeira tentativa de morrer pelas próprias mãos dera-se em 1941, quando se atirou do alto do Corcovado. Recolhido pelo Corpo de Bombeiros, recuperou-se e compôs Fez bobagem. Estudou no Liceu de Artes e Ofícios, trabalhou como farmacêutico, mas ganhava a vida fazendo próteses dentárias.

Foi, porém, como compositor que deixou seu nome na música brasileira. Começou a compor aos 19 anos. Sua primeira letra de sucesso foi Tem francesa no morro, samba gravado por Araci Cortes, em 1932, em que satiriza a moda dos burgueses cariocas de infestarem suas falas de expressões francesas.

Todavia quem consolidou seu prestígio como letrista foi Carmen Miranda, que gravou várias composições suas, ainda que tenha rejeitado aquele que seria o maior sucesso do compositor, Brasil pandeiro, gravado em 1940 por Anjos do Inferno, regravado três décadas depois pelos Novos Baianos.

Assis Valente insurgiu-se, não contra os neologismos franceses, mas contra os modismos, frutos da pura exibição de quem queria mostrar que sabia francês: ''Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá'', escreve ele, limitando-se a transcrever o francês falado pela gente fina e nobre.

Debochado, acrescentava o estribilho, repetido a cada dupla de versos do desjeitoso francês: ''Dance Iaiá, dance Ioiô''. ''Si vu frequentê macumbe entrê na virada e finí por sambá/ dance Iaiá, dance Ioiô''. ''Vian petite francesa, dancê lê classique em cime da mesa/ Quand la dance comece, on dance ici, on dance aculá''.

E terminava dizendo: ''si vu ne pa dancê, pardon, ma cherri, adie, je me vá''. Naturalmente, não era necessário, como não é ainda, nenhuma tradução. Aquele francês macarrônico era entendido por todos.

No ano seguinte, foi a vez de Carmen Miranda gravar Good bye, boy. Mas desta vez Assis Valente apenas inseriu expressões da língua inglesa para criticar outro modismo, o de incrustar vocábulos de inglês no meio da conversa: ''Good bye, good bye, boy/ deixa a mania do inglês/ é tão feio pra você/ moreno frajola,/ que nunca freqüentou/ as aulas da escola''.

O compositor dava à música uma função escolar, que hoje muitos defendem para a televisão: ''antes que a vida se vá/ ensinaremos cantando/ a todo mundo/ B e bé, b e bi, b a bá''. E não se conformava: ''não é mais boa noite/ nem bom dia/ só se fala good morning/ good night''. Viu nas expressões indícios da complexa dominação socioeconômica: ''Já se desprezou o lampião/ de querosene/ lá no morro/ só se usa luz da Light''.

Na Copa de 1994, realizada nos Estados Unidos, por artes da mídia, o Brasil inteiro voltou a cantar outros versos de Assis Valente: ''O Tio Sam está querendo/ Conhecer a nossa batucada/ Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/ Vai entrar no cuscuz/ acarajé e abará/ Na Casa Branca já dançou/ a batucada de ioiô, iaiá''.

Os versos convidavam: ''Brasil, esquentai vossos pandeiros/ iluminai os terreiros/ que nós queremos sambar''.

  • Deonísio da Silva escreve às quartas

  • teresa97@terra.com.br

    [12/ABR/2006]

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