A gente fica uma semana fora e quando volta encontra tudo quase igual.
Igual ou pior?
Os fragmentos que restavam da aliança política que se propunha a ''sustentar'' o governo FH acabaram de ruir e, com eles, foi para o espaço uma era de lideranças políticas onipotentes e hegemônicas. Destruiu-se o indestrutível e a nossa democracia, ao contrário do que sugeriu recentemente o presidente da República, graças a Deus saiu fortalecida.
As movimentações na política não trouxeram surpresas. A agenda foi cumprida à risca. Atenta, a nação ouviu o histórico discurso de renúncia do rei da Bahia - sem denúncias nem revelações.
Enquanto isso, as pesquisas confirmavam a queda livre da popularidade de um presidente que, carismático como ele só, há 2 anos e 5 meses foi consagrado no primeiro turno para governar o país pelo segundo mandato consecutivo. Em outubro de 1998, a população demonstrou confiar amplamente num presidente que havia resgatado a moeda nacional. Agora, porém, o povo está no mínimo decepcionado com a virulência e o autoritarismo de um plano de racionamento concebido às pressas entre quatro paredes e que entra em vigor amanhã.
Eu não me lembro de ter visto, num espaço tão curto de tempo, mudança tão radical no cenário brasileiro.
Em janeiro estávamos todos em festa.
Pessoalmente, ouvi um sem-número de especialistas no começo do ano. Com fórmulas econométricas ou não, todos destilavam otimismo. Era impressionante a certeza sobre o futuro do dólar - um mercado de risco e, por definição, imprevisível. Comprar dólar ou entrar num fundo cambial em janeiro? Nem pensar! Frente ao real, que ainda desabrochava, o dólar subiria uns 4% em 2001. Se tanto!
Pois fechou o semestre batendo recordes atrás de recordes, com alta de 22%, muito acima de qualquer outro investimento.
Primeiro, foi o cenário externo que piorou. Depois, deteriorou-se o cenário interno: antes na política; agora na economia, com um racionamento que não tem nem explicação nem justificativa. As pessoas parecem compreensivelmente indignadas. Estão sendo obrigadas a cortar um consumo que foram incentivadas a aumentar durante a euforia do Plano Real/governo FH.
Os eletricitários informam que começam a receber ameaças de retaliação do consumidor sujeito a punições. Não bastasse o receio de perder o emprego, reina agora o medo entre a categoria. Aquele que for ''escalado'' pela empresa para cortar o fornecimento dos que não economizaram teme sofrer represálias.
Com sua peculiar imprevidência para esse assunto, Fernando Henrique conseguiu o que parecia impossível: unir o capital e o trabalho. Entidades patronais e sindicais já promovem encontros de paz. Todos dizem estar à procura de meios para minimizar os efeitos da recessão que pode vir por aí.
O racionamento vai cortar produção e empregos bem agora, quando os líderes sindicais, pela primeira vez em sete anos, se preparavam para lutar não apenas pela garantia de emprego como também por melhores salários.
Esse sonho também acaba de ruir.
É claro que ainda é prematuro dimensionar o tamanho do estrago do racionamento na produção brasileira. Também é cedo para dizer que a perda, política ou econômica, é irrecuperável. O que ninguém pode ignorar são os gráficos da queda de popularidade do presidente da República neste começo de semestre em que o quadro eleitoral para 2002 vai começar a se definir. Fernando Henrique vive seus piores momentos destes 6 anos e 5 meses de mandato. Caso Sivam, a crise do sudeste asiático de 1997, a ameaça de recessão nos Estados Unidos. Tudo parece pequeno quando comparado à falta de planejamento no setor de energia elétrica. Os investimentos foram estancados e a população brasileira é quem vai pagar o pato.
Sugiro que cruzemos os dedos. Se, no começo do ano, prevalecia o otimismo que agora caiu por terra, por que não contar com a possibilidade de a situação voltar a se reverter? É verdade que o maior país católico do mundo precisará rezar muito para São Pedro. Mas, uma vez feitas todas as orações, e depois de muita chuva no segundo semestre, quem sabe os equívocos do passado não terão servido de lição? Já pensou? O Brasil talvez entre em 2002 com os reservatórios mais altos no momento em que os investimentos de agora - principalmente nas termelétricas do gás - estarão próximos da maturação.
Insisto: o brasileiro tem uma incorrigível vocação para a felicidade. E tem todo o direito de exigir mais previdência e mais competência.