A nossa sociedade tem aspectos bastante desanimadores. Historicamente, ela tem se modificado em função do interesse dos de ''cima'' em detrimento dos de ''baixo''. Quando uma mudança se torna necessária, ela se realiza sob controle dos ricos e com escassa participação dos pobres. A dimensão da continuidade na nossa história é muito mais forte do que a ocorrência de rupturas.
O Estado, entre nós, não é levado a sério, desde os tempos da colônia. As autoridades que representavam a Corte portuguesa aqui recebiam ordens de Lisboa. Por um lado, eram ordens que não podiam deixar de ser acatadas, porque vinham da matriz. Por outro, era impossível cumpri-las, porque não tinham nada a ver com a situação existente naquilo que depois se tornaria o Brasil. Resultado: as ordens não eram contestadas, mas também não eram obedecidas.
Desenvolveu-se na população a convicção de que o comando político não merecia nenhum respeito. E as autoridades locais, desrespeitadas, manifestaram crescente receptividade à corrupção.
A impunidade que se verificava nos casos de tantas maracutaias, a revolta contra os escândalos que envolviam os privilegiados, afinal, tinham alguma repercussão nas áreas populares e o Estado tratava de reprimir com violência os movimentos de protesto. O recurso freqüente à repressão, contudo, nunca resolveu problema algum.
Veio o Império, veio a República, e as coisas quase não mudavam. Permaneciam e até se agravavam a venalidade, o oportunismo, a degradação dos valores éticos. Nessas condições, é compreensível que, buscando em vão uma saída, as pessoas se tornassem descrentes.
Mestre Antonio Candido observou que o Brasil é, provavelmente, o único país do mundo cujo maior escritor, Machado de Assis, é um grande cético. O ceticismo de Machado era a expressão lúcida de alguém que não queria alimentar ilusões. Ele era tão cético que não acreditava sequer em sua própria ideologia, calcada - inevitavelmente - na ideologia do liberalismo europeu.
Ao se aprofundar, contudo, o ceticismo se destrói a si mesmo. Até para duvidar, é preciso ter convicções. Descrer também é crer. Pascal, o filósofo francês do século 17, sabia disso. Daí que ele tenha formulado a sua teoria da ''aposta''. Quem está vivo, está fazendo escolhas, tomando decisões, quer dizer, apostando em alguma coisa. Quem escolhe sempre corre algum risco; algumas apostas, porém, podem ser razoáveis. Machado de Assis, por exemplo, acreditava na literatura, apostava nela. E essa foi uma aposta razoabilíssima. A ela devemos suas obras-primas.
Até para relativizar, nós necessitamos de algo que valha como uma referência confiável, como alavanca para a relativização. Vale a pena lembrarmos um pequeno poema de Brecht, que tem apenas três versos e expressa, de maneira genial, o impasse do ceticismo. ''Só acredite no que os seus olhos vêem e seus ouvidos escutam./ Não acredite nem no que os seus olhos vêem e seus ouvidos escutam./ E saiba que não acreditar ainda é acreditar.''
Velhas crenças vão se ossificando, se burocratizando, vão perdendo o poder de receber adesões apaixonadas, vão perdendo a capacidade de se renovar. Outras crenças as substituem. O caso do Brasil é sintomático. O discurso patriótico tradicional, parnasiano, impregnado de certezas simplistas, em um tom retórico que soava oco, nos assegurava que o Brasil era o país do futuro (conforme o título de um livro famoso de Stefan Zweig, que, por sinal, se suicidou em Petrópolis).
De fato, não há nenhuma garantia de que o nosso país vai dar certo. Nenhuma concepção determinista da história garante resultados históricos ao tentar eliminar o acaso, ao fechar os olhos para as intervenções surpreendentes dos sujeitos humanos.
Já reconhecemos que a nossa história não tem sido animadora. Já admitimos que as circunstâncias entre nós não têm sido propícias à democracia. Até agora, também não podemos dizer que o governo Lula tem posto em prática uma política econômica resolutamente democratizadora (é o mínimo que se pode dizer...).
No entanto, a história política recente, desde o fim da ditadura, da campanha das ''diretas já'', desde o movimento ''Fora Collor'', da mobilização do campesinato pelo MST, até a luta atual pelas reformas e a eleição de um operário para a Presidência da República, tem sido uma história que vem mexendo com as expectativas e a consciência crítica das massas. Há algo de irreversível nas alterações em andamento.
Vamos nos reanimar. Vamos fazer uma aposta razoável. Vamos apostar: o Brasil vai dar certo.