Um pesquisador está sujeito a surpresas. Pode encontrar, na pesquisa, a confirmação de suas hipóteses. Mas pode, também, levar alguns sustos. Na semana passada, procurei localizar nos meus arquivos uma anotação que eu teria feito num recorte de jornal em 1990. Ou foi em 1991, talvez em 1992? Comecei a vasculhar e, de repente, me defrontei com declarações curiosas.
Estávamos na época do famigerado Plano Collor, em 1990. O presidente da República anunciava que havia aprendido no caratê que a luta podia ser vencida com um único golpe: o ippon. E garantia que venceria por ippon a luta contra a inflação. Em abril, a ministra Zélia Cardoso de Mello comunicava: ''A inflação está vencida. Não há nenhuma possibilidade de retomarmos o processo inflacionário''. E seu chefe confirmava: ''A inflação está liquidada''.
Pouco depois, entretanto, o ministro Antonio Kandir reconhecia: ''A inflação continua alta''. Em setembro, o coro dos economistas que criticavam o Plano Collor aumentou bastante. E o presidente, irritado, contra-atacou: ''São todos incompetentes. Todos. Têm que voltar a aprender aritmética''.
A discussão envolvia muita gente. O atual prefeito, Cesar Maia, na época era deputado do PDT e gostou do Plano Collor. Disse: ''É inteligente, bem calçado, bem-feito. Nós, da esquerda, desejaríamos ter feito esta reforma monetária, mas não teríamos coragem, porque logo viriam os tanques''.
O presidente saía de casa para correr nos fins de semana e o secretário de Imprensa, Cláudio Humberto, dizia: ''Temos um presidente alto, novo, bonito e corajoso e tudo que ele faz dá certo. Ele veio depois de Sarney, que é velho, feio, baixinho e covarde e tudo que ele fazia dava errado''.
A primeira-dama, num estilo rude que lembrava o de Cláudio Humberto, pontificava: ''Homem inteligente, no Brasil, fora meu marido, não conheço nenhum''.
Em matéria de estilo, o governo Collor era um fenômeno. Um ministro, entretanto, parecia insuperável na cafonice: Rogério Magri, ministro do Trabalho. Uma de suas declarações preferidas era: ''Não gosto de ler porque quem lê muito acaba confundindo suas idéias e perde seu ponto de vista''. Quando esteve em Roma, o ministro ficou impressionado com o papa João Paulo II. Elogiou a bondade e a inteligência do sumo pontífice e acrescentou: ''Ele fala até português, melhor do que eu''. Magri foi, evidentemente, cem por cento favorável ao Plano Collor. Criou até um neologismo para expressar seu apoio: ''O plano é imexível''.
Outra figura pitoresca era o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, que alguns chamavam de ''o turco''. Em sua defesa do Plano Collor, Ibrahim Eris chegou a dizer: ''Se o plano não der certo, eu volto para a Turquia''.
Sabemos todos como foi que esse filme terminou. No final, foram todos (ou quase todos) varridos do poder. A direita, decepcionada, abandonou-os. E no campo da esquerda, o que aconteceu?
As expectativas eram grandes. O PT crescia a olhos vistos, a liderança de Lula despertava uma enorme esperança no coração da massa trabalhadora. Muita gente, que tinha pegado em armas contra a ditadura, se animava com a perspectiva da realização de profundas mudanças revolucionárias sem explosões de violência.
Outros, contudo, se preocupavam com o risco de um ''amolecimento'' do conteúdo do programa do PT e temiam que o partido se descaracterizasse e abrisse mão do seu compromisso essencial com o socialismo democrático.
A brava professora Marilena Chauí, intelectual brilhante, advertia, numa entrevista concedida à revista Isto É em 24 de abril de 1991, que o PT não deveria ser indulgente nas concessões ao sistema, não deveria se tornar um mero gestor social-democrático do capitalismo.
Dizia Marilena Chauí: ''Temos de recuperar a radicalidade do PT sem concessão à social-democracia''. Depois de ter ouvido as vozes do passado - as tolices de Collor, Magri, Zélia, Cláudio Humberto, Ibrahim Eris e companhia - foi com muita alegria que escutei a fala límpida, cristalina, de Marilena.
Tenho uma única dúvida, a respeito da entrevista da cara filósofa: será mesmo uma voz do passado, pertencente a um tempo que já se foi? Ou será uma voz - premonitória - do presente?