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Marx era autoritário e anti-semita?


''Deus morreu. Marrx também. E eu mesmo não ando me sentindo muito bem ultimamente.'' Foi com essa frase que um filósofo francês iniciou uma palestra feita em São Paulo há poucos anos. A frase é divertida, mas não é convincente. No mundo atual, há cada vez mais gente enveredando pelo caminho da religião, indo ao encontro de Deus. É evidente que, se essas pessoas O buscam, é porque - para elas - Ele existe. Portanto, é temerário declará-Lo morto.

E Marx? Durante os cento e vinte e poucos anos transcorridos após a sua morte (em 1883), o homem sobreviveu, em forma de idéia, em sucessivas gerações de marxistas. Agora, porém, em que situação nos encontramos?

Ainda existem marxistas? Ao que tudo indica, sim. Uma rápida olhada no campo de batalha das idéias nos mostra um numeroso contingente de admiradores do pensador alemão (entre os quais, o ''caso perdido'' que vos fala).

Uma pergunta, no entanto, se impõe: ''De qual Marx se trata?''. É aquele Marx que escreveu os Manuscritos de 1844 e O capital? É o autor do Dezoito Brumário? Ou é um ícone inventado por adoradores enfeitiçados por sua ''aura''? Tenho a impressão de que não é nem uma coisa nem outra.

A fidelidade dos intérpretes atuais é relativa. As condições históricas mudaram, a interpretação tinha que mudar. As ênfases se deslocaram, novos questionamentos surgiram, novas hipóteses estão sendo propostas. A fonte da reflexão, contudo, continua sendo Marx.

Por meio dessa influência que ele ainda exerce, então, Marx continua vivo. O que o filósofo francês poderia dizer, corrigindo sua frase espirituosa, seria algo banal: ''Marx envelheceu''.

De fato, Marx, depois de morto, envelheceu. Algumas das idéias de sua densa obra se ressentem de limitações que não devem ser ignoradas. Algumas das suas previsões foram desmentidas pela história. Ao contrário de Deus - que, por definição, é eterno - o humaníssimo Marx mostra as marcas da passagem do tempo.

Os discípulos talentosos se sentem desafiados a retomar o vigor do pensamento do mestre, limpando-o das idéias superadas, anquilosadas. Agora mesmo, a editora da Universidade Federal do Rrio de Janeiro está lançando um livro intitulado Marx (sem ismos), de autoria de um curioso marxista espanhol, de nome Francisco Fernandez Buey. É um trabalho que expressa novas tendências.

Reagindo contra a mitificação do ídolo, o marxista Buey se debruça sobre acusações incômodas que os adversários costumam fazer contra Marx e admite que algumas delas podem ter alguma razão. Buey é um marxista convicto, admira Marx mais do que qualquer outro pensador da história moderna e contemporânea. No entanto, critica o filósofo alemão comunista.

Para o espanhol, Marx, de certo modo, peca por autoritarismo. E, num sentido diferente daquele que o termo tem hoje, Marx nutria sentimentos anti-semitas. Devo declarar que concordo com a primeira, mas não com a segunda das duas críticas.

De qualquer maneira, acho muito positivo que os marxistas atuais possam questionar o legado de Marx com toda a desenvoltura, interpelando-o ousadamente. Com todo o respeito que tenho pelos grandes lutadores do passado, acho muito animador que ''já não se fazem marxistas como antigamente''.


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[22/MAI/2004]


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