E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Uma guerra de perdedores

Informe JB
Fome de emprego

Cartas
113 anos do JB

Horóscopo

Alberto Dines
História, modos de usar

Gente
Asdrúbal balzaquiano

Charge Online

Marcia Peltier
Caras de todos

Nas Páginas da História
1º de maio no JB

Informe Econômico
Revanche elétrica

Leandro Konder
A malandragem é universal

Boechat
Riscos

Gilberto Amaral
Exercício de autoridade

Hildegard Angel

Anna Ramalho
Aquarela do Brasil

 


A malandragem é universal


No Brasil, o prestígio da língua alemã é grande. Basta que algo venha dito ou escrito em alemão e as pessoas, muitas vezes, começam a achar a coisa mais profunda do que seria se estivesse dita ou escrita em outra língua.

Por um lado, há nesse comportamento uma justa homenagem ao idioma de Lessing, Kant, Goethe, Hoelderlin, Hegel, Marx, Heine, Thomas Mann, Brecht e tantos outros grandes escritores. Por outro lado, devemos tentar dimensionar corretamente essa admiração.

A língua alemã tem servido a autores geniais, mas também tem sido usada por pessoas que com ela não só produzem literatura de baixa qualidade como abusam do direito de dizer tolices.

Um grande erudito e crítico literário competentíssimo, o saudoso Otto Maria Carpeaux, contava historinhas muito divertidas a respeito de alguns falsos sábios, que passavam por autoridades científicas aos olhos de ingênuos admiradores brasileiros.

Um deles se chamava (creio que está vivo, então devo dizer que se chama ainda) Günter W. Lorenz. Escreveu e publicou um livrinho sobre o poeta Garcia Lorca, um volume que ele mesmo reconhece ser muito ruim.

Escreveu e publicou, também, um livro intitulado (em alemão) A literatura contemporânea na América Latina. Nesse livro, entre outras barbaridades, sustenta que o Romantismo na literatura brasileira nunca desenvolveu a imagem do ''bom selvagem'' (o Guarani de José de Alencar e os poemas de Gonçalves Dias não existem?). E afirma, impávido, que o brasileiro, ao contrário dos seus vizinhos de fala castelhana, não precisou da imagem do ''bom selvagem'' porque não tem má consciência em relação aos indígenas.

Um pouco adiante, nessa mesma obra, diz que, embora comunista, Jorge Amado não corria o perigo de ser preso, tamanha era a sua popularidade. Seus adversários políticos o deixavam solto por ''justificado medo da ira do povo''.

Se levarmos em consideração o fato de que o livro foi publicado em 1971, em plena efervescência da resistência à ditadura no Brasil - época dos romances de Antonio Callado, do Incidente em Antares, de Erico Veríssimo -, também é pouco convincente o anúncio de que a ''literatura de combate'' estava no fim, porque os combatentes estavam ''cansados''.

O que é mais engraçado, hoje, 34 anos depois, é se defrontar com uma das ilustrações do livro, uma foto em que o autor - Günter W. Lorenz - aperfeiçoa a técnica do ''papagaio de pirata''.

Houve, em 1970, um encontro de escritores latino-americanos em Darmstadt, na Alemanha. Ao final do encontro, os escritores se organizaram para uma foto de grupo. O alemão, que já se preparava para lançar seu livro, se colocou em uma posição estratégica, entre Vargas Llosa, Jorge Edwards e Garcia Márquez. Conseguiu ser fotografado em companhia dos três escritores mais famosos, respectivamente, do Peru, do Chile e da Colômbia.

Isso, contudo, não era suficiente, porque outras figuras menos célebres apareciam igualmente na imagem gloriosa, dissolvendo um pouco a figura que deveria ser mais enfaticamente valorizada: a de Gunter W. Lorenz.

O que fez, então, o autor de A literatura contemporânea na América Latina? Simplesmente ampliou a imagem, pegou uma tesoura e recortou cuidadosamente as figuras que desejava eliminar, deixando apenas ele mesmo e as três celebridades.

Como se tratava de uma manobra pioneira, recém-inventada, a técnica não era perfeita e num exame acurado da foto podia ser percebido o caminho da tesoura.

n

Essa velha historinha e esse velho personagem não devem ser sumariamente esquecidos. Eles servem para nos fazer lembrar de que a malandragem não é uma característica exclusiva de algumas áreas da população brasileira. Por mais que ela se manifeste com invulgar energia em alguns momentos e em algumas áreas da população brasileira, está espalhada pelo mundo. Macunaíma se sente em casa em toda parte. A malandragem é universal.

E é universal também o dilema em que ela nos coloca, quando nos defrontamos com ela: nos resignamos a conviver com ela sem reclamar, numa atitude de aceitação implícita, conformista, desalentada? Ou nos dispomos a combatê-la e a criticá-la?


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[01/MAI/2004]


   Home > Colunas > Leandro Konder

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas