Alberto, o sapateiro anarquista, sempre adorou o Dom Quixote e sempre foi fascinado pela figura de Sancho Pança, o seu atarrracado escudeiro. No início do livro - diz o sapateiro - a gente pensa que está diante de um completo cretino, um lavrador tão crédulo que larga a mulher e a filha para seguir o seu delirante patrão, na expectativa de vir a ser o governador de uma ilha.
À medida que a narrativa avança, contudo, Sancho chega a mostrar uma lucidez surpreendente. E, por incrível que pareça, chega a se tornar governador da ilha de Barataria.
Sua estréia como governador é auspiciosa. Pela lei daquele tempo, cabia-lhe julgar os processos. E Sancho demonstra que é um juiz bastante esperto.
Dois casos são suficientes, aqui, para comprová-lo. No primeiro, dois velhotes discutem uma questão de dinheiro: um emprestou 20 moedas de ouro ao outro, o outro diz que as devolveu. Disposto a jurar sobre a Bíblia, o cara que recebeu o ouro passa sua bengala para o outro. E jura.
Após meio minuto de silêncio, o governador pede ao dono da bengala (que já havia sido retomada) que lhe permita examiná-la. Então, subitamente, a quebra e faz aparecerem as moedas de ouro que nela estavam escondidas. Sancho desmascarou o pilantra.
O segundo caso é o de uma mulher jovem que acusa um camponês de tê-la violentado. Sancho pega o dinheiro que o acusado tinha e o dá à moça, que vai embora bem contente. O governador, então, ordena ao camponês que vá no encalço da queixosa e lhe retome o dinheiro, custe o que custar.
O rapaz retorna sem ter conseguido recuperar a grana e a mulher também volta ao tribunal para se queixar da tentativa de assalto. Sancho decide que o que ficou provado é que a ''vítima'' não defendeu sua honra nem com a metade da energia com que defendeu o dinheiro recebido.
A popularidade do governador subiu muito. O povo viu nele uma comprovação de que um homem de origem humilde podia se tornar um excelente governador. Sancho passou a fazer rondas noturnas, ficou muito chocado com a fome dos pobres e com a corrupção. Mandou fechar as casas de jogo.
Seu prestígio junto à massa trabalhadora estava no auge, quando o governador foi surpreendido por um evento imprevisível: inimigos haviam invadido a ilha e ameaçavam tomá-la militarmente. Os assessores vestiram-no com uma armadura e o puseram num corcel fogoso (ele preferia o antigo jumento).
Até aqui, o velho sapateiro anarquista se limitou a narrar o que está no livro de Cervantes. Chegando ao momento da guerra, entretanto, Alberto inventa o relato. Torna-se ficcionista.
Sem convicção, Sancho fez uma inspeção de seus generais. Depois, na trincheira, viu a cara dos generais inimigos. E constatou que elas eram iguais.
Segundo Alberto, Sancho tomou consciência de que o inimigo estava dentro do governo. Que fazer?
Por uma fração de segundo, o escudeiro teve o impulso de chamar Dom Quixote para ajudá-lo. Logo, porém, afastou a hipótese. Dom Quixote era muito doutrinário, muito socialista, muito aferrado aos princípios e às teorias da esquerda. As idéias de Dom Quixote não servem para o tempo presente, murmurou Sancho.
Nossa época exige novas concepções, novas atitudes, nova linguagem. Sancho convocou uma reunião geral de todos os generais, de ambos os lados. E fez para eles um discurso emocionado.
Alberto evoca a figura de Sancho, cofiando a barba grisalha, gorducho, suando em bicas dentro da armadura. Com voz comovida, Sancho garantia: ''Não existe nenhuma contradição entre o interesse dos moradores de Barataria e os interesses dos invasores. Ao contrário, em inúmeras ocasiões, os avanços econômicos, a prosperidade, a modernização só foram alcançados porque os dois lados agiram conjuntamente''.
E, para encerrar sua fala, formulou uma proposta clara e exequível: ''Vamos somar forças, em vez de dividir. Vamos nos unir, em torno de um mesmo comando, capaz de segurar a agitação dos de baixo. Há lugar para todas as lideranças no ministério''.
Alberto passa a mão na cabeça. Não se conforma com a situação criada por ele mesmo na trajetória do escudeiro. E opina: ''Antes de mais nada, Sancho precisa tirar a armadura''.