Alberto, o velho sapateiro anarquista, está há uma semana comemorando a vitória dos socialistas na eleição espanhola. Para todos, ele diz que o Zapatero de Madri é seu primo em oitavo grau.
Reanimado com a batalha vencida em solo ibérico na luta contra os conservadores, Alberto volta a se debruçar sobre o quadro político brasileiro.
O panorama doméstico, porém, não é animador. Segundo o veterano agitador ácrata, na política brasileira há muito pouca coisa nova. O estilo, os argumentos, as propostas de acordo, as ''rasteiras'', tudo é muito parecido ao que se via 50 anos atrás.
- Até o humor é semelhante. As pessoas riem de piadas políticas que, no essencial, são as mesmas que nos faziam rir há cinco décadas.
Como uma confirmação do que afirma, Alberto relembra o ex-ministro Carvalho Pinto, que um dia chamou o garçom do restaurante onde costumava almoçar e anunciou:
- Tenho um presentinho pra você, meu filho.
Como o homem era famoso por ser sovina, o garçom se espantou. Mas, obedecendo ao comando do ministro, estendeu a mão.
Carvalho Pinto falou:
- É para o seu uísque.
E depositou na mão do garçom um pedaço de gelo.
O sapateiro pergunta:
- Se trocarmos o nome do ministro, não é uma piadinha bastante atual?
Outra historinha antiga: um advogado chamado - vejam só - Waldomiro instalou-se com sua equipe num escritório do centro da cidade. Eram, notoriamente, advogados que trabalhavam apenas para bicheiros. Puseram na porta uma placa: ''Waldomiro e Companhia - advogados associados''.
Durante a noite, os vizinhos a substituíram por ''Waldomiro e Companhia - advogados mancomunados''.
Mais uma historinha desenterrada pela memória do anarquista: um deputado de nome Abel Rafael (ou algo parecido) era considerado muito ignorante entre seus pares. Um dia, pouco antes do Natal, um colega lhe comunicou que tinha um presente para ele: um livro.
O deputado tentou impedir que o anúncio se concretizasse:
- Não faça isso, já tem um lá em casa.
Como anarquista que é, Alberto tem uma visão muito crítica de todos os poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Como já tinha contado uma historinha de um ministro (Executivo) e de um deputado (Legislativo), fez questão de contar também uma historinha debochada a respeito de um juiz.
Começou com uma lembrança de Balzac, escritor francês do início do século 18, que descrevia um juiz no conto A interdição e falava da ''face de carneiro'' do magistrado. Balzac atribuía a estranha aparência ao fato de ele ter sido obrigado a ouvir arrazoados longuíssimos e chatíssimos feitos por advogados.
O juiz da historinha do sapateiro não tinha cara de carneiro; tinha cara de bode. E o que é pior: de bode zangado.
Era grosseiro no trato com as partes e no trato com os funcionários.
Um dia, o magistrado estava particularmente mal-humorado e explodiu para cima do chefe da Secretaria. Como ainda não havia sido cumprida a ordem, dada na véspera, para que as janelas fossem limpas, o juiz insultou seu subordinado:
- Você é um MAL caráter!
O chefe da Secretaria retrucou:
- Minha situação funcional aqui me impede de discutir com o senhor, já que eu sou seu subordinado. Quero lhe dizer só uma coisa. Se o senhor me desafiasse para um duelo e eu tivesse o direito de escolher as armas, pode ter certeza de que eu escolheria a gramática.
O sapateiro insiste: se ainda existe alguma atualidade nessas piadinhas, é porque as coisas mudaram muito pouco.
A reforma do Legislativo está atrasada, a reforma do Judiciário está atrasada e a reforma do Executivo também está atrasada.
Lembram daquele anúncio: ''Eu sou você amanhã''? Pois agora temos uma situação na qual, olhando os personagens das velhas piadas, talvez possamos dizer: ''Vocês são nós ontem''...