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A torta e o carnaval

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A torta e o carnaval


Carnaval é festa popular, só é autêntico quando tem bagunça. Um crítico russo, Mikhail Bakhtin, observou que o Estado tende sempre a absorver a festa, impondo-lhe certa ordem, fixando limites para a sua irreverência. Tentando até exigir bons modos para as explosões de alegria. O que as autoridades conseguem, entretanto, é estrangular a espontaneidade do carnaval. O resultado da repressão é melancólico: transforma a festa em espetáculo comercial.

Por que o Estado age dessa forma ? Porque é intrinsecamente autoritário e teme a rebeldia. O carnaval não transforma a sociedade, não é (nem pretende ser) revolucionário. O espírito do carnaval vive o instante, o presente, não se preocupa com o futuro. Por um momento, ele suprime a diferença entre o palco e a platéia, envolve todos na mesma farsa.

Seu ''igualitarismo'' é limitado, porém efetivo. As hierarquias são momentaneamente abolidas. Tudo pode ser virado pelo avesso e transformado no seu contrário. Homem se veste de mulher, mulher se veste de homem. Velho finge que é jovem, jovem finge que é velho. A linguagem adota o grotesco, adere ao pastelão.

Estamos, justamente hoje, entrando em pleno sábado de carnaval. Essas idéias de Bakhtin, contudo, me vieram à cabeça já na semana passada, quando li que o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, na quarta-feira, dia 11 de fevereiro, tinha sido alvejado no rosto por uma torta de maçã, com creme e cerejas, lançada por uma jovem militante do movimento Crítica Radical.

Lançada, aliás, não é a palavra adequada. As fotos do, digamos, incidente mostram que a mão da moça acompanhou o vôo da torta até a ''aterrissagem'' final. Não houve propriamente um arremesso e sim o que em basquete se chama de ''enterrar''. Por mais desagradável que tenha sido sua experiência como alvo, o ministro há de reconhecer que o lance foi tecnicamente perfeito. E essa eficiência ''desportiva'', tão necessária no momento, merece ser exaltada e estimulada.

Outra coisa que, a meu ver, deve ser levada em conta é o fato de que o episódio ocorreu no período de aproximação do carnaval. Ao se aproximar, o carnaval começa logo a promover as inversões a que se referia Bakhtin. As coisas sentem que vai se iniciar o reino de Momo e viram pelo avesso. A iminência da chegada do carnaval já cria um clima carnavalesco.

O destino natural da torta seria o de ser comida pelo ministro. Nas condições de ímpeto carnavalesco (ou pré-carnavalesco), porém, a torta ficou, como se costuma dizer, de pernas para o ar. E foi lançada - digo, ''enterrada'' - no rosto do companheiro ( ?) Berzoini.

Berzoini se irritou muito, porque entendeu que havia no ato um desacato. Entendeu que a torta atingia a dignidade do cargo, da função ministerial. Adotou, portanto, uma linha de interpretação severa, que desprezava a dimensão carnavalesca do evento.

Paradoxalmente, quando alguém assume, no clima carnavalesco, ares de seriedade forçada, o efeito pode ser o contrário do que se pretendia. A irritação excessivamente séria do ministro, por contraste, lançou luz sobre a delicadeza da moça da torta. Seu gesto foi o de uma profanação, sem dúvida, mas uma profanação de carnaval. E alguns cuidados foram tomados para evitar qualquer impressão de grosseria.

Se fosse apenas um objeto a ser lançado contra Berzoini, a jovem poderia ter improvisado um bolo ordinário, de farinha. No entanto, ela pôs no rosto do ministro uma torta sofisticada, feita de creme, de maçã. O ministro não pode deixar de admitir que a maçã deu um toque de requinte à criação culinária. A maçã tem sua nobreza, sua tradição. Tem sabor e perfume. E, para evitar que sua polpa dura ferisse o rosto ministerial, foi usado o creme.

Mas a coisa mais delicada, a meu ver, foi a inclusão das cerejas no projétil gastronômico. O ministro conhece bem a frutinha vermelha deliciosa que é a cereja. Não lhe há de ter escapado a discreta alusão ao seu passado socialista - disperso, mas talvez parcialmente recuperável (?) - na cor vermelha. É possível que a brava militante do movimento Crítica Radical estivesse possuída pelo ânimo pré-carnavalesco. Tudo sugere, porém, que o arremesso da torta foi uma cobrança feita com emoção, sim, porém com alguma elegância. A jovem cobrava uma mudança de rumo. E a gente só cobra de alguém que faça algo se o outro, afinal, tem condições de fazê-lo.


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[21/FEV/2004]


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