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As netas de Marx e o documento inédito de Engels


As irmãs Marx não são a versão feminina de Groucho, Harpo e Marx. Nem são as irmãs do velho pensador comunista, o alemão Karl. As irmãs Marx são personagens de ficção criadas pelo arquiteto escocês Barry Maitland, num romance policial intitulado, exatamente, As irmãs Marx.

O romance foi lançado na Inglaterra há alguns anos (em 1995, ed. Penguin) e o jornalista Luiz Garcia (nós nos conhecemos há 50 anos) teve a gentileza de me dar de presente um exemplar da obra, sabendo que eu a leria com enorme prazer.

A primeira observação é a de que as três velhinhas são netas do filósofo barbudo, são filhas de Frederic Demuth, filho adulterino que Karl teve com a empregada ''Lenchen'' e cuja paternidade acabou sendo assumida por Engels, o amigão, para evitar que a esposa, Jenny, se separasse do marido.

Frederic Demuth existiu, de fato, e isso dá credibilidade à história das três velhinhas.

Elas moram num casarão antigo, situado no mesmo bairro onde o avô residiu, em seus últimos anos de vida. São netas que não só admiram seu ilustre antepassado como adotam os valores que ele defendia.

Dinheiro não lhes interessa. Por isso, recusam qualquer oferta que lhes seja feita para venderem a casa. Isso incomoda muito uma colossal incorporadora que precisa adquirir o imóvel e demoli-lo para construir um shopping gigantesco no quarteirão.

Por outro lado, uma universidade dos Estados Unidos recebe informações secretas a respeito da existência de um manuscrito inédito de Engels, que as velhinhas teriam herdado da tia Eleanor, a filha de Karl. E consta que o texto de Engels modifica toda a interpretação que vem sendo feita a respeito do pensamento central desenvolvido no Capital. Engels o teria redigido em seus últimos dias, quando já não conseguia falar, mas estava lúcido e deixou o manuscrito com Eleanor.

A universidade norte-americana mandou uma agente à Inglaterra, com a missão de obter o texto de qualquer maneira, custasse o que custasse. As velhinhas, contudo, aferradas às lembranças do avô, não abririam mão de papéis tão significativos. E nunca os venderiam.

De repente, uma das velhinhas é assassinada. Investigadores britânicos competentes são acionados. Paira no ar a pergunta: as duas irmãs Marx sobreviventes correm risco de vida?

Várias hipóteses são formuladas. A primeira é a que aponta na direção da incorporadora. Havendo tanto dinheiro investido no negócio, sempre poderia surgir gente ambiciosa e truculenta para matar uma velhinha meio amalucada.

Outra hipótese suspeita da agente da universidade norte-americana. Sabe-se que, para fazer carreira, num ambiente tão competitivo, pode-se chegar mesmo a praticar um crime.

Não vou, é claro, contar o fim da história e estragar o prazer da leitura. O enredo é bastante original, o autor escreve com graça, o livro é muito divertido. Personagens de ficção se movem num cenário do qual fazem parte figuras históricas reais, como Frederic Demuth e Karl Marx.

Hoj em dia, é bom a gente sublinhar que Marx foi uma figura histórica real, e não é apenas um personagem de ficção, uma fantasia alucinatória, que vive na cabeça de um bando de malucos, auto-intitulados ''socialistas''. Marx tem sido tratado com muito desrespeito.

No entanto, poucos filósofos dos últimos duzentos anos poderiam aparecer como uma referência convincente no pano de fundo de um romance policial como o de Barry Maitland. Façam, leitores, um esforço de imaginação. A quem um bom romancista poderia atribuir três netas como as irmãs Marx?

Talvez Nietzsche (as irmãs Nietzsche). Possivelmente Heidegger (não acredito), Hegel seguramente não. Adorno e Horkheimer jamais funcionariam como o avô carismático. Max Weber seria um desastre: quem compraria um livro intitulado As irmãs Max Weber?

Quem leria As irmãs Bérgson ou As irmãs Popper?

Não estou discutindo a importância da obra desses filósofos; refiro-me exclusivamente à capacidade de figurarem num romance cujas fascinantes protagonistas seriam suas netas. Refiro-me só ao poder de fazer das netas figuras tão fortes como ''as irmãs Marx''.


[10/JAN/2004]


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