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Críticas de Serra podem ajudar a direção do PT
[29/NOV/2003]
O que é, exatamente, ''corporativismo''? Ao que parece, o termo ''corporativo'' veio da medicina e indicava alimentos ou remédios que deveriam contribuir para o fortalecimento do corpo.
Na Idade Média, porém, já se concebia o termo corpo como uma reunião de pessoas, um grupo organizado, uma ''corporação''. E daí veio o corporativismo.
O corporativismo, então, passou a ser a concepção teórica que considera os grandes grupos, as grandes corporações, os fundamentos da estrutura social, isto é, os interlocutores essenciais do Estado.
Nas primeiras décadas do século 20 houve casos de convergências constrangedoras entre certas correntes do corporativismo e o fascismo mussoliniano.
Já naquela época, entretanto, desenvolveu-se uma análise crítica original e instigante do corporativismo feita pelo pensador marxista italiano Antonio Gramsci. Se os leitores quiserem, podem ler o que Gramsci escreveu nos seis volumes que a editora Civilização Brasileira vem publicando, numa edição primorosa.
O filósofo italiano observa que a democracia precisa sempre de uma ampliação da mobilização das camadas populares. A ampliação da participação, por sua vez, depende, na maioria dos casos, de que as pessoas se convençam de que devem fazer política para defender seus interesses particulares, corporativos.
Segundo Gramsci, então, uma motivação corporativa é necessária - legítima - nos primeiros níveis da mobilização política (os níveis daquilo que ele chama de ''pequena política'').
Para que o processo de transformação política avance, porém, ele não pode se adaptar, com espírito conformista, à estreiteza da consciência egoístico-corporativa. Precisa viver uma experiência intensa (Gramsci fala numa catarse), capaz de elevá-lo a uma reflexão comprometida com as demandas da sociedade como um todo.
Na direção de um clube, de uma escola de samba, de uma seita religiosa ou de um time de futebol, como também na participação num conglomerado comercial, essa passagem da ''pequena política'' para a ''grande política'' pode tardar, pode ser lenta.
Mas há um tipo de organização que, por sua própria natureza, não pode se furtar a enfrentar em tempo hábil o desafio de dizer o que vai fazer como parte essencial da possibilidade de fazê-lo. Estou me referindo, é claro, ao partido político. E penso, especialmente, num partido político profundamente marcado por sua história de lutas democráticas: o PT.
Todos compreendemos que o bravo companheiro-presidente e os leais companheiros-ministros tenham tido suas energias absorvidas por medidas urgentes, destinadas a evitar o caos.
Acho que também é compreensível que, articulando as contribuições bastante diversas de correntes de esquerda que haviam chegado a um acordo em torno da aceitação da liderança de Lula, o governo tenha passado esses meses convivendo com procedimentos corporativos, pautados por pactos de ''pequena política''.
Agora, no entanto, as decisões políticas que estão para ser tomadas no presente dependem de decisões que se fazem também para o futuro. As batalhas que vão ser travadas hoje trazem com elas os riscos que precisarão ser assumidos nas grandes batalhas de amanhã.
Essa preocupação tem me dado dores de cabeça. Por isso, li com atenção o discurso do senador José Serra, quando ele assumiu a presidência do PSDB. Como petista que sou, discordo da perspectiva de Serra, divirjo dele politicamente. Não devo deixar de reconhecer, contudo, que sua acusação de que o governo do PT tem uma política de manutenção e ampliação do poder (corporativa!), mas não tem propriamente um programa de governo, é uma acusação que não é desprovida de razoabilidade.
Creio, mesmo, que devemos admiti r que, independentemente de suas intenções, o senador José Serra pode estar prestando relevante ajuda à reflexão dos dirigentes do PT.
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