O assunto mais comentado, ao que parece, continua sendo
A ditadura derrotada, o livro de Elio Gaspari. Os leitores se agitam, se emocionam. Não cansam de se surpreender com o que lêem.
Elio Gaspari ''humaniza'' seus principais personagens, fala de seus dramas pessoais, do acidente trágico com o filho de Ernesto Geisel e dos surtos psicóticos da mulher de Golbery. Reconhece a competência intelectual de ambos, aponta os momentos em que a inteligência dos dois se manifestou. No entanto, a relação pessoal com a dupla não impede o jornalista/ historiador de apresentá-los sob uma luz implacavelmente crítica.
Geisel era um direitista visceral, desde o tempo em que era capitão e apoiou a entrega de Olga Benario Prestes aos nazistas alemães. Sua aceitação da tortura e da política de extermínio dos presos políticos foi coerente com a truculência dos seus princípios. Elio Gaspari diz com toda a clareza: ''Geisel sabia o que acontecia no porão''.
Logo após o golpe de 1964, o general Geisel foi designado para apurar denúncias de tortura e rapidamente informou que tinham ocorrido apenas alguns casos isolados: ''Só há casos isolados. Não há vítimas, há alguns casos''. É bastante estranha a lógica pela qual as pessoas que sofreram tortura em ''casos isolados'' não devem ser consideradas vítimas...
Muitos leitores ficaram espantados com a violência verbal de Geisel. É, de fato, impressionante vê-lo se referir ao ''patife do Gudin, que é um salafra, um judeu sem vergonha''. Para concluir: ''Esse sujeito já devia estar há muito tempo num asilo de velhos''.
Mesmo quem discordava radicalmente da política econômica de Gudin - como o autor destas linhas - há de se assustar com o tom dessa diatribe. E isso sem falarmos na barbaridade do anti-semitismo que aparece na expressão ''judeu sem vergonha'', aplicada a Gudin (que, aliás, não era judeu).
Também tem sido de um constrangimento inevitável a reação de numerosos leitores diante da recomendação feita por Geisel aos militares que torturavam prisioneiros: ''Agir com muita inteligência, para não deixar vestígios''.
O apoio dado aos torturadores dificilmente deixaria de se desdobrar num apoio dado aos assassinos. Com certeza, Geisel se sentia um tanto contrafeito nesse apoio, porém não deixou de dá-lo.
Um dos trechos mais citados do livro A ditadura derrotada tem sido o do diálogo entre o general Dale Coutinho e Geisel. Perguntado a respeito da atividade dos agentes da repressão, Dale Coutinho respondeu: ''Melhorou, aqui entre nós, porque nós começamos a matar''. E Geisel comentou: ''Esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser''.
O grande Luis Fernando Verissimo acha que há algo de positivo na primeira parte da frase, no reconhecimento de que matar é uma barbaridade. É provável que Verissimo tenha razão (como costuma). Seria melhor se, depois de ter dito o que disse, o general Geisel tivesse recuado diante da aprovação da prática de matar prisioneiros. No entanto, podemos constatar que não recuou. A ação, no caso, pesava mais do que o discurso.
Geisel manteve na direção do Centro de Informações do Exército (CIE) o general Milton Tavares de Souza. E, ao fazer essa opção - segundo Elio Gaspari -, mostrou que ''apoiava e desejava a continuação da política de extermínio''.
Conversando com amigos conservadores, que se confessam decepcionados com a revelação do alcance do comprometimento do general Geisel na repressão - inclusive nas torturas e assassinatos - ouvi deles referências à ''dignidade'' que lhes parecia ter a aparência do general e também a evocação de atitudes críticas assumidas por ele em relação à ditadura do marechal Costa e Silva.
- Não devemos esquecer isso: Geisel repeliu a ditadura de Costa e Silva. O que você me diz disso? - perguntou um dos meus interlocutores.
Respondi:
- Por mim, não digo nada.
Elio Gaspari, no entanto, explica com clareza: Geisel fazia restrições à ditadura de Costa e Silva não por ser ditadura, mas por ser de Costa e Silva.