Somos todos seres históricos. Existimos na história, dentro dela. Não podemos escapar ao poder que ela exerce sempre - implacavelmente - sobre nós. No entanto, ficamos enrolados, confusos, quando alguém nos pergunta, abruptamente: o que é a história? Qual é a participação que nós temos - e qual é a que podemos vir a ter - no movimento da história?
Por um lado, sabemos que a história não é exatamente um movimento externo que nos arrasta, nos arrebata, que nem a Portela arrebatava o nosso magnífico Paulinho da Viola naquele samba que já é um clássico da MPB: ''Foi um rio que passou na minha vida/ e o meu coração se deixou levar''.
Por outro lado, também sabemos que o curso da história não se deixa torcer e retorcer de acordo com os impulsos dos nossos desejos e das nossas vontades.
Essa tensão entre os equívocos simetricamente inversos do fatalismo e do voluntarismo estava presente nas preocupações dos psicanalistas reunidos nos Estados Gerais da Psicanálise, no encontro que se realizou na semana passada aqui no Rio, no Hotel Glória (comentado pelo jornalista Milton Temer e pelo psicanalista Paulo Blank no JORNAL DO BRASIL de quarta-feira).
Nas discussões, apareciam duas tendências, reconhecidamente perigosas no plano teórico. Uma delas assusta porque tende a desvalorizar o espaço onde os sujeitos fazem escolhas, tomam decisões, optam por determinados valores (e não outros), assumem riscos e responsabilidades. Os sujeitos sentem, pensam e agem guiados pelo inconsciente, o irracional predomina tão esmagadoramente sobre o racional que não nos resta quase espaço algum para opções racionais.
O que preocupa muitos psicanalistas é a impressão de que esse espaço não deve ser subestimado, porque é o espaço da ética.
A outra tendência teoricamente problemática seria, ao contrário, aquela que nega o inconsciente. Estava representada no encontro pelo italiano Antonio Negri.
Na medida em que desaparece a necessidade de reconhecer os limites que o inconsciente lhe impõe, o pensamento tende a superestimar seu poder racionalizador.
Desprezando os obstáculos internos, o sujeito que nega o inconsciente pode facilmente subestimar também as limitações que as condições materiais, sócio-econômicas, impõem à nossa percepção e aos nossos projetos de transformação da realidade.
Em vez do objetivismo da primeira, temos nessa segunda tendência um subjetivismo tendencial, que pode alimentar sonhos irrealistas a respeito da história que se faz e daquela que se pretende fazer.
Foi uma pena que o terceiro volume da série dedicada por Elio Gaspari à análise crítica da política militar nos anos da ditadura, A ditadura derrotada, não tenha sido lançado antes, porque teria trazido para os psicanalistas uma ilustração muito rica do quadro das iniciativas baseadas em convicções ético-políticas tomadas pelos que exerciam o poder.
No livro de Elio Gaspari, muitos personagens importantes, revisitados, têm suas dimensões modificadas. De alguns deles, pode-se dizer: vendiam à opinião pública a imagem de que faziam história, porém, na verdade, faziam tristes palhaçadas. Posavam de dirigentes, mas eram os tristes palhaços da ditadura.
Elio Gaspari, por sua vez, com muita sobriedade, fina ironia e riquíssima documentação, dispôs-se a fazer um excelente jornalismo, porém fez mais do que isso: fez história.