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Maledicência, a arte de falar mal e de ouvir sem culpa
[20/SET/2003]
A maledicência, segundo alguns, é uma arte: a arte de falar mal dos outros. O maledicente deve bater no ponto fraco certo e nunca deve resvalar para o insulto, a ofensa ou a grosseria. Os que ouvem observações maledicentes devem poder sorrir (ou rir) sem qualquer sentimento de culpa.
Na realidade, a maledicência depende de habilidades retóricas que são cultivadas mais na vida literária do que na literatura. Ela não se limita a apontar fraquezas alheias, mas, ao apontá-las, sublinha-lhes o ridículo. Para ser divertida, como quer ser, não pode pretender se aprofundar. Sua busca é a de alguma sutileza engraçada que caiba em aforismos polêmicos.
Historicamente, o Rio de Janeiro tem sido, em sua vida literária, o principal centro brasileiro de cultivo da maledicência. Os mesmos círculos que apreciam piadas sofisticadas e trocadilhos eruditos costumam ouvir com prazer comentários maledicentes (não só sobre ''inimigos'', mas até mesmo sobre amigos).
Caso se fizesse um campeonato da maledicência (que idéia mais maluca!), o Rio teria um candidato fortíssimo: o crítico literário Agripino Grieco. Nos anos 20, 30 e 40 do século passado, ele falou mal de muitos dos seus colegas escritores e de alguns políticos ilustres.
Para Agripino Grieco, Raul Fernandes, por exemplo, era um maquiavelzinho dos tabelionatos. Francisco Campos, o Rui Barbosa de Minas Gerais, se empenhava em ''espremer com fúria os úberes da eloqüência''. Tobias Monteiro tinha o ar de um solitário que sofria de solitária. Pedro Calmon tinha ''doçuras de pequeno pagem tocando bandolim junto a uma princesa''.
Querem mais? Gustavo Barroso era autor de ''livros tediosos como sala de espera''. Os sermões de Dom Aquino eram ''cacetes como um solo de harpa''. Guilherme de Almeida se esforçava por parecer belicoso, mas causava triste impressão: era como ''se alguém pudesse ser guerreiro da Ilíada lutando a golpes de leques''. Oswaldo Orico era um poeta que tinha quatro zeros no nome. Lourival Fontes era um ''ruminante dos discursos de Mussolini''.
Comentando um artigo elogioso de Roquete Pinto sobre o poeta francês François Coppée, Agripino Grieco dizia que Roquete Pinto não só tinha lido como confessava publicamente que tinha gostado de Coppée. De Ataulfo de Paiva, o nosso maledicente escreveu: ''Suas horas de ócio devem ser 24 por dia''. E acrescentava: ''Um sentimento sincero nessa criatura seria tão estranhável quanto um incêndio num frigorífico''. Para concluir: ''Que ternura há nele quando trata dos poderosos!''
Augusto Frederico Schmidt - ''menestrel da bolsa'' - era para Agripino um ''girassol dos milionários'': ''Ninguém o viu nunca em companhia de um artista pobre''. Catulo da Paixão Cearense incorria em três mistificações: não era Catulo (grande poeta romano), não tinha Paixão (a não ser por si mesmo) e sequer era cearense (nasceu no Maranhão). João Neves era um ''discursador que nunca está nos seus melhores dias''. E teria confundido num discurso o Partenon de Atenas com o Panteon de Paris. No escritor português Antonio Ferro, puxa-saco do ditador Salazar, que estava fazendo sucesso no Brasil, Agripino só via ''pirotecnia ordinária''.
Os exemplos poderiam se multiplicar, o maledicente era incansável.
Os juízos nem sempre eram justos, a verdade contava menos do que o sorriso do leitor.
Relendo os escritos de Agripino Grieco, encontramos neles a graça e os limites da maledicência. De um lado, temos um inegável talento humorístico, o dom da pilhéria, uma inegável coragem intelectual. Do outro, certa superficialidade, incompatível com a boa literatura.
Grandes escritores podem ser facciosos (como se vê no ódio a Napoleão, que Tolstoi manifesta em Guerra e paz). Na autêntica literatura, porém, o facciosismo não se reduz jamais à maledicência.
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