Antonio Gramsci. Esse nome aparece na conversa quase inevitavelmente toda vez que o assunto é o pensamento marxista, sua teoria do Estado, sua concepção da cultura, sua análise do papel dos intelectuais.
Enquanto outros teóricos socialistas vêm atravessando um período de prestígio declinante, o pensador revolucionário italiano tem tido suas idéias constantemente relembradas, tanto para serem adotadas como para serem refutadas.
Agora mesmo acaba de ser lançado o sexto e último volume da nova edição brasileira dos Cadernos do Cárcere, primorosamente preparada por Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Nova oportunidade para reflexões, com divergências de interpretação.
Em certos aspectos de sua abordagem filosófica de importantes questões teórico-políticas, Gramsci foi um marxista que foi além de Marx e um leninista que foi além de Lênin. Seu ''historicismo absoluto'', por exemplo, é muito original e tem sido sempre celebrado com entusiasmo por admiradores e severamente criticado por adversários.
Insistindo no esforço de ''pensar historicamente'' o nosso autor, segundo seus críticos, estaria correndo o risco de dissolver os seres e as coisas no fluxo da história. Se estamos em pleno reinado absoluto do efêmero, onde vamos buscar os padrões duradouros de que necessitamos para, por comparação, compreender o que passa depressa?
Gramsci, o historicista, se defende argumentando que representar um determinado momento histórico-social não significa reduzir-se a ele. Os momentos histórico-sociais são ricos em contradições, nunca são homogêneos.
A melhor maneira de representá-los é superar as limitações do ''pitoresco'', a pobreza do ''senso comum'', que nos põem diante de uma enorme confusão mais ou menos paralisada, que nos rodeia.
O desafio que devemos enfrentar é o de enxergar a atividade vital que predomina como ''linha de frente'' histórica, exercendo uma influência decisiva na determinação do sentido do movimento que passa pelo momento histórico vivido.
Às vezes a gente custa a encontrar ou criar esse sentido. Há épocas nas quais isso é mesmo bastante difícil. A situação de Gramsci era péssima. Mussolini, como ditador, era elogiado por Winston Churchill, enquanto seu prisioneiro mofava na cadeia.
Para evitar que o promotor tivesse êxito na proposta de impedir seu cérebro de funcionar, Gramsci aproveitava exercícios de crítica literária para desmascarar hipócritas e medíocres inflados, escribas que ele chamava de ''os filhotes do padre Bresciani'' (referindo-se a um romancista católico antiliberal do século 19, amigo do Papa Pio IX).
Farpas sobraram para alguns escritores daquele tempo. Os escritos de Curzio Malaparte são caracterizados como ''arrivismo desenfreado''. Um artigo de Giovanni Papini é considerado ''prolixo, pomposo e vazio''.
Gramsci, porém, se mostra atento para não deixar que a atividade do crítico literário se transformasse num ''massacre contínuo'', numa sucessão de ''demolições''. Cabe-lhe a tarefa de completar o juízo negativo com a indicação de pontos positivos.
Para a avaliação do que é negativo e do que é positivo, o pensador dispunha de um critério próprio. O que enriquecia a cultura era, a seu ver, a aproximação entre os intelectuais e o povo, em condições que favorecessem uma revitalização do passado e uma vigorosa diversificação das expressões históricas no presente. Enriquecida dessa maneira, a cultura seria o que Gramsci chama de ''nacional-popular''.
Quando, porém, os intelectuais sentiam pelo povo apenas ''comiseração'' e a história se fez com escassa participação popular, a cultura se ressente de superficialidade e ''cosmopolitismo''.
Gramsci se mostra firmemente convencido de que a transformação da sociedade será efetivamente estimulada pelas condições características de uma cultura ''nacional-popular''. E, coerente com esse pensamento, defende uma linha de ação político-cultural que o distingue dos comunistas dos anos trinta.
Enquanto Stálin (e muitos outros) se empenhavam em mobilizar os artistas, utilitariamente, na política (sobretudo na formação de ''quadros'', quer dizer, na educação de militantes), Gramsci prefere assegurar à criação artística toda a liberdade de que ela carece. E cita Benedetto Croce: ''A arte educa. Mas não como arte educativa''.