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Madureira chorou

Aprendi com Rubem Braga. Numa semana de 1945, os americanos entraram em contato com a lua através do radar, o que na época era emocionante. Rubem anunciou o feito na primeira linha da crônica para logo na segunda colocá-lo em seu devido lugar: ''Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho''.

Era o que eu queria dizer. Os americanos tomaram Bagdá. Mas o mais importante acontecimento dos últimos dias foi o que fizeram com o meu pé de milho. Estou me desfazendo da casa em que passei a adolescência, ao redor de Madureira, e onde ainda hoje existe, por uma coincidência que meu fervor cívico por Braga explicaria, uma plantação de milho. Casa e milharal foram vendidos a preço de banana. Tudo pela impossibilidade de conviver com balas perdidas que desabam nos quartos, ameaça de invasão e outras pragas que vicejam na horta carioca. Meu pé de milho murchou. Não dá mais para cultivar platitudes ingênuas no subúrbio do Rio. Adeus patuás do Mercadão.

Era uma casa muito engraçada, com todos os adereços de uma boa casa suburbana, a começar pelo São Jorge na fachada e o quintal que servia de base para lançamento de balão japonês. Não mais. Não faz muito tempo meus pais colocavam cadeiras na calçada e dedicavam-se a conversas como as de Braga: o pé que nascia era de milho mesmo ou cana? Não há mais clima para especular amenidades nem curtir nostalgias. Tinha jogo de bola, pique-esconde. Alegres passadismos suburbanos. Todos mortos. Chama o corretor e toca a mudança. O que tem agora é muito medo.

Vinicius de Moraes passava de trem, via aquelas casas em que estava escrito que era um lar e se dizia, na célebre Gente humilde, com vontade de chorar. Nunca entendi a tristeza do poeta. O subúrbio dava vontade de cantar. Vinicius, no entanto, ficou atualíssimo. Se o bicho pega na porta do Meridien, imagina no sopé do Morro do Caracol?! A calçada dos meus pais virou um corredor em que tem sempre alguém fugindo de uma bala. Desculpem. Não dá mais para ser Rubem Braga e nas noites de lua olhar o pé de milho achando que ele ''parece um cavalo empinado, as crinas ao vento''. Foi-se o alumbramento poético por trás dos vultos de um quintal suburbano. É assalto mesmo.

Há muito tempo já não moro naquela casa que ora se vende ao arrepio da primeira oferta, mas outras pessoas da família e centenas de fantasmas de entes queridos, memórias felizes e planos de que aquilo seria o quintal onde trotariam, por entre árvores fabulosas, toureando formigas com cabeça de fogo, crianças de várias gerações. Elas vão perdoar, mas é como essas famílias iraquianas em fuga - vendeu-se por sobrevivência. Preservação da espécie. O medo venceu o medo. A casa tem novo dono.

Foram 40 anos desde a construção até este momento em que o noticiário policial sai das páginas e bate no portão dizendo chegou a sua vez, mermão, passe a chave do casarão. Hora de sair de mansinho e, depois de ler o jornal da manhã, agradecer a sorte. Famílias estão perdendo o filho, como a da adolescente no metrô da Tijuca. Outras perdem o pai, como a do professor de Laranjeiras. A violência no Rio é democrática. Tem para todos. Aguarde. Ela se apresenta de muitas maneiras, nem sempre com o horror clássico do barulho de um tiro. Em alguns casos é apenas esta porta que bate e interrompe, passado e futuro, a felicidade suburbana que foi e que poderia ter sido.

[09/ABR/2003]

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