Na subida do morro me contaram, que ''o jumento e o cavalinho, eles nunca andam só''. Eu estava na favela da Rocinha. Realizava expediente santo que algum parágrafo benigno da lei de imprensa me desobriga a revelar aqui e me libera, na paz, tá ligado?, para seguir com o texto em frente e fazer o que interessa. Dar o bizu. Passar a última do carioca. Foi lá na Rocinha, logo depois de ter descido do puxadinho de dona Maria José Clemente, uma paraibana simpática que mora no Ruão e franqueia, um real a cabeça, o mirante da sua laje para que turistas e curiosos fotografem o casario do morro, foi lá que eu soube. Um moleque chamado Clayton, o cabelo descolorido e um símbolo da Nike desenhado no cocuruto, me contou em troca de mais um real. Eis a notícia do momento. O jumento e o cavalinho nunca andam só porque ''quando saem para passear eles levam a egüinha Pocotó''.
A Pocotó, 40 anos depois da Garota de Ipanema, 30 anos depois de Rose di Primo em tanga, é a nova musa carioca. Trata-se, por assim dizer, de uma música. Um funk. Três semanas atrás, quando o Clayton me bateu a parada na Rocinha, achei que era coisa da comunidade. Taras exóticas da altitude. Mas, xongas! Neres de pitibiriba! A egüinha Pocotó é o que há no momento e este aqui é apenas o relato de quem viu primeiro na favela e este fim de semana nem precisou subir aos ares para tanto. Os programas populares de televisão não passaram outra coisa. Um hit nacional!
Não espere que eu emule um Flávio Cavalcanti de frente e saia quebrando discos, pedindo que diante das deusas que nos cruzam as ruas deveríamos continuar no ''Olha que coisa mais linda''. O último moralista foi visto camelotando DVD pirata na Uruguaiana para ganhar a vida. Foi-se Tom, foi-se Vinícius, a impressão é que foram-se todos os empenhados em preservar as palavras gentis e saudar com honras as delicadezas da existência. Estou fora também. Não se fabricam mais regadores da flor do Lácio. Esculachem-se à vontade. Queimei os últimos miolos ao sol de meio-dia na Rio Branco.
Nada é mais exatamente o que parece, nada é mais exatamente o que está sendo dito. Decifrem-se ou devorem-se, dá no mesmo, que eu vou à praia - está calor demais para qualquer briga por princípios antigos. Às mulheres sussurrava-se ''tesouro'', ''gostosura'', ''pedaço de mau caminho''. Viraram ''popozudas'', ''cachorras'', ''descontroladas''. Na atual pista aberta pela ignorância, a Pocotó vai trotando sucesso no que antes pareceria ser apenas vulgaridade. Debochem-se, mas esta semana só entro em arenas com ar refrigerado. Vi mulheres dançando eufóricas o novo trote, nem um pouco ofendidas, e olhe que em seguida o mesmo cantor grita ''sai daqui/ não é a cinderela/ você não é gatinha/ você é minha cadela''. Suem bastante, divirtam-se como lhes aprouver o novo estilo. Mas hoje é melhor calar. Transpira menos. Sou do tempo em que animais soltos na rua eram laçados. Não mais. Foi-se a carrocinha, foi-se este último bastião da moralidade pública, foi-se também Nelson Rodrigues que neste momento estaria ao meio-fio, a baba santa escorrendo-lhe por um canto da boca. Sacramentaria aos ventos ateus: ''Só a carrocinha salva a família! Só a carrocinha faz sabão do deboche!''
A confusão embutida nas letras dos funks - são preconceituosas? são liberadoras? - chegou ao Ministério da Saúde e quase tirou R$ 40 mil da bolsinha da Kelly Key. Sem maldade, na boa, no sentido musical da coisa, Kelly é pré-pocotó, embora falem a mesma língua e corram o mesmo páreo. Um técnico do Ministério, certamente da ala Luma de Oliveira, encantou-se pela mensagem da cantora em Baba, Baby e contratou-a - ''ela sabe o que quer'' - para estrela da tradicional mensagem da camisinha no carnaval. Outro técnico do governo petista, certamente da ala Heloísa Helena, achou que era dar voz de educadora a quem se destacou apenas pela futilidade. Kelly venceu. Tirou de um ator, homem, o último direito que restava ao grupo - discutir a roupa do próprio bráulio.
Deve ser por tudo isso - está muito quente para definir melhor - que as novas mulheres foram vistas tão animadas com o trotar da egüinha. A Pocotó também não precisa de jóquei para se esbaldar na pista.